domingo, 25 de março de 2012

Santo Manoel Bandeira


 
MADRIGAL MELANCÓLICO
Manoel Bandeira

O que eu adoro em ti,
Não é a tua beleza.
A beleza é em nós que ela existe.
A beleza é um conceito.
E a beleza é triste.
Não é triste em si.
Mas pelo que há nela de fragilidade e de incerteza.

O que eu adoro em ti
Não é tua inteligência.
Não é o teu espírito sutil,
Tão ágil, tão luminoso,
- ave solta no céu matinal da montanha.
Nem é a tua ciência
Do coração dos homens e das coisas.

O que eu adoro em ti,
Não é a tua graça musical,
Sucessiva e renovada a cada momento,
Graça aérea como o teu próprio pensamento,
Graça que perturba e que satisfaz.

O que eu adoro em ti,
Não é a mãe que já perdi,
Não é a irmã que já perdi,
E meu pai.

O que eu adoro em tua natureza,
Não é o profundo instinto maternal
Em teu flanco aberto como uma ferida.
Nem a tua pureza. Nem a tua impureza.
O que eu adoro em ti – lastima-me e consola-me!
O que eu adoro em ti, é a vida. 

(11 de julho de 1920)

 
Manuel Carneiro de Souza Filho (1886 - 1968) - poeta, cronista, ensaísta, memorialista, tradutor e organizador de antologias. Um dos grandes desse país, de humor único, de ousadia refinada. Modernista, recusou-se a participar da Semana da Arte Moderna de 1922. A tuberculose o atingiu ainda jovem, e o fez viajar muito em busca da cura; por causa da doença fez muitas coisas em sua vida, dizia ele.
Foi um leitor inveterado, e brincou e examinou a morte. Conversou com ela. Teve medo. Riu dela. Manoel é um poeta obrigatório; é um gênio brasileiro que pode ensinar caminhos surpreendentes. Conviveu com os grandes intelectuais brasileiros de seu tempo, e é conhecido como um amigo maior. Teve uma relação especial com Carlos Drummond. É um dos meus grandes mestres, um dos meus protetores, pra quem oro quando a dor cresce. 

(Bandeira, Chico Buarque, Jobim e Vinicius)
 



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