quinta-feira, 1 de março de 2012

SAUDADES DE DRUMMOND III



OS ÚLTIMOS DIAS

(continuação)

O tempo de despedir-me e contar
Que não espero outra luz além da que nos envolveu
Dia após dia, noite em seguida a noite, fraco pavio,
Pequena ampola fulgurante, facho, lanterna, faísca,
Estrelas reunidas, fogo na mata, sol no mar,
Mas que essa luz basta, a vida é bastante, que o tempo
É boa medida, irmãos, vivamos o tempo.
A doença não me intimide, que ela não possa
Chegar até aquele ponto do homem onde tudo se explica.
Uma parte de mim sofre, outra pede amor,
Outra viaja, outra discute, uma última trabalha,
Sou todas as comunicações, como posso ser triste?
A tristeza não me liquide, mas venha também
Na noite de chuva, na estrada lamacenta, no bar fechando-se,
Que lute lealmente com sua presa,
E reconheça o dia entrando em explosões de confiança, esquecimento, amor,
Ao fim da batalha perdida.
Este tempo, e não outro, sature a sala, banhe os livros,
Nos bolsos, nos pratos se insinue: com sórdido ou potente clarão.
E todo o mel dos domingos se tire;
O diamante dos sábados, a rosa
De terça, a luz de quinta, a mágica
De horas matinais, que nós mesmos elegemos
Para nossa pessoal despesa, essa parte secreta
De cada um de nós, no tempo.
E que a hora esperada não seja vil, manchada de medo,
Submissão ou cálculo. Bem sei, um elemento de dor
Rói sua base. Será rígida, sinistra, deserta,
Mas não a quero negando as outras horas nem as palavras
Ditas antes com voz firme, os pensamentos
Maduramente pensados, os atos
Que atrás de si deixam situações.
Que o riso sem boca não a aterrorize
E a sombra da cama calcária não encha de súplicas,
Dedos torcidos, lívido
Suor de remorso.
E a matéria se veja acabar: adeus, composição
Que um dia se chamou Carlos Drummond de Andrade.
Adeus, minha presença, meu olhar e minhas veias grossas,
Meus sulcos no travesseiro, minha sombra no muro,
Sinal meu no rosto, olhos míopes, objetos de uso pessoal, idéia de justiça, revolta e sono, adeus,
Vida aos outros legada.


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