segunda-feira, 30 de abril de 2012

AO GRUPO DE ESTUDOS: tema 'O OUTRO'




EL CENTINELA
Jorge Luis Borges
Entra la luz y me recuerdo; ahí está.
Empieza por decirme su nombre, que es (ya se entiende) el mío.
Vuelvo a la esclavitud que ha durado más de siete veces diez años.
Me impone su memoria.
Me impone las miserias de cada día, la condición humana.
Soy su viejo enfermero; me obliga a que le lave los pies.
Me acecha en los espejos, en la caoba, en los cristales de las tiendas.
Una u otra mujer lo ha rechazado y debo compartir su congoja.
Me dicta ahora este poema, que no me gusta.
Me exige el nebuloso aprendizaje del terco anglosajón.
Me ha convertido al culto idolátrico de militares muertos, con los que acaso no podría cambiar una sola palabra.
En el último tramo de la escalera siento que está a mi lado.
Está en mis pasos, en mi voz.
Minuciosamente lo odio.
Advierto con fruición que casi no ve.
Estoy en una celda circular y el infinito muro se estrecha.
Ninguno de los dos engaña al otro, pero los dos mentimos.
Nos conocemos demasiado, inseparable hermano.
Bebes el agua de mi copa y devoras mi pan.
La puerta del suicida está abierta, pero los teólogos afirman que en la sombra ulterior del otro reino estaré yo, esperándome.

In Antología poética – 1923-1977, Jorge Luis Borges, Alianza Editorial, Madrid, 1995.


Vejamos também o conto ‘O outro’, do mesmo Borges, in O libro de Areia, Coleção Folha de São Paulo, SP, 2012.

domingo, 29 de abril de 2012

ARTE, VIDA E SONHO:

 O romance ‘Museu da Inocência’ (2008), de Orhan Pamuk, já foi comentado e recomendado aqui no clube. É uma delícia. Faz parte daqueles livros que, depois de convivermos com eles por algum tempo, a gente sente uma saudade danada. Neste dia 27 de abril/2012, Orhan Pamuk, inaugurou o ‘Museu da Inocência’, em Istambul, com uma coleção de relíquias da vida cotidiana de meio século, entre 1950 e 2000: tema, tempo e história do romance. O Museu, sonho de Pamuk, homenageia o romance, a vida turca cotidiana e a cidade de Istambul. É um acontecimento fascinante; obriga-nos a sonhar, a repensar (mais uma vez) a relação arte/vida/arte... Terminamos a leitura do romance sonhando com Istambul, mais que isso, íntimos de Istambul e de sua gente. Ele teve a ideia do museu ao mesmo tempo em que escrevia o romance, sucesso no mundo inteiro. Enquanto escrevia, ele recolhia objetos pelos cantos da cidade, objetos pessoais, únicos e simples, imprescindíveis em nosso cotidiano. Eu estou com uma razão a mais para sonhar com Istambul.


"Nossas vidas diárias são honoráveis, e os objetos delas deveriam ser preservados. Não se trata de maneira alguma de glórias do passado”. "São as pessoas e seus objetos que contam". "Escrevi este romance colecionando, ao mesmo tempo, os objetos que descrevo no livro", afirmou Pamuk numa entrevista coletiva à imprensa para apresentar o museu. Oitenta e oito vitrines reconstituem passo a passo o amor impossível de Kemal, um istambulita de uma família abastada prestes a se casar, por Fusun, uma prima distante pobre, na Istambul dos anos 1970.
Pamuk recebeu o Nobel de Literatura em 2006.

p.s: posts que se referem a Orhan Pamuk no clube Quase-Ser-Tão: 02/09/09; 03/09/2009; 26/06/11; 28/09/11 e 29/09/2011

sábado, 28 de abril de 2012

Este post vai para...

Luiz Felipe, Débora (obrigada por dar-me a trilha sonora do mes do meu aniversário), Edson, Vagner, Dani Klein, Ana e todos aqueles que se arriscam, que sabendo da hora de 'viver ou morrer', criam...




quinta-feira, 26 de abril de 2012

A escrita, segundo Chandler

“Quanto mais rápido escrevo, melhor eu escrevo. Se estou muito devagar, estou em apuros. Significa que estou empurrando as palavras em vez de estar sendo empurrado por elas.” 

Raymond Chandler (escritor e roteirista americano; mestre do romance policial. Imperdível)

quarta-feira, 25 de abril de 2012

CINEMA:


OS FALSÁRIOS: belo filme austríaco. Este filme consegue ser original bebendo na inesgotável fonte dos horrores da segunda guerra. O mesmo cenário, os mesmos protagonistas e, pode-se dizer, a mesma trama. Entretanto, ao fixar-se no doloroso dilema: ‘a vida em si, sobreviver a qualquer custo’ ou ‘a morte por valores inegociáveis’, o filme se diferencia e se impõe. Sem grandiloquência, sem superproduções nem pieguices, mantendo uma narrativa quase tranquila, sustenta-se na emoção, na tragédia humana de fazer escolhas. Solitariamente. O diretor Stefan Ruzowitzky fez um belo trabalho a partir do livro The Devil’s Workshop que, por sua vez, trata de uma história real, a história do judeu falsário, Salomon Sorowitsch, prisioneiro dos nazistas.  O ator corresponde e traz uma interpretação delicada, contida, que combina muito bem com os diálogos quase monossilábicos (na verdade, os atores). O filme é intrigante exatamente por se colocar despretensioso. Ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro de 2008. Fica a dica. 



terça-feira, 24 de abril de 2012

De coração em coração.... vamos à revolução.

Aqui bate um coração em São João D'el Rei... 

 

Este é um fazer que faz diferença, que importa, que significa... 

 

VIVA A ARTE DO QUADRINHO!

 Rafael Grampá foi convidado pela Folha para registrar o show do  Bob Dylan em São Paulo... aí está, tal como eu lhes contei, foi que nem o show que eu vi aqui dia 19.... VIVA BOB, o mesmo, o de  ontem, de hoje, de sempre... REVOLUCIONÁRIO do século XXI (único, por enquanto). Fotógrafos, jornalistas, promoções, tititis, tatatás.... proibidos. O negócio é música. Somente música. Deu pra entender? Legal Rafael, de fato passei o show pensando que falta ver o Leonard Cohen... ainda falta esse. Tipo que nem... é possível.



segunda-feira, 23 de abril de 2012

SÃO JORGE: o universal



Jorge está em todos os lugares. É capadócio, africano, inglês, português, russo, carioca, corintiano, escoteiro, cavaleiro, soldado... Ano passado já falamos bastante dele aqui, neste 23 de abril: Dia de São Jorge. Respeitamos Jorge, o universal. E deixamos uma dica de um ótimo trabalho sobre ele:  São Jorge – arquétipo, santo e orixá – Maria Augusta Machado, Ibis Libris Editora. É muito bom. 

O LIVRO:


Que Dostoiévski é dono de um universo inteiro já o declarou Fernando Pessoa. Nós temos apenas que dizer 'amém'. Destacar um astro num universo é tarefa insana, certamente. Mas somos insanos, é certo. Enfim, O grande Inquisidor, o discurso de Ivan Karamazov, é uma estrela absoluta, arrebatadora, dentro do universo dostoiéskiano. É o que sugerimos para encerrar esta estação de comemoração do LIVRO.  

 (...)
“Mas, Tu não quiseste privar o homem da liberdade e recusaste, achando que ela era incompatível com a obediência comprada por meio de pães. Replicaste que o homem não vive somente de pão; mas sabes que, em nome desse pão terrestre, o Espírito da Terra se insurgirá contra Ti, lutará e Te vencerá, que todos o seguirão, gritando: “Quem é semelhante a esse animal? Ele nos deu o fogo do Céu!”Séculos passarão e a humanidade proclamará pela boca de seus sábios e de seus intelectuais que não há crimes e, por conseguinte, não há pecado; só há famintos. “Nutre-os e então exige deles que sejam virtuosos!” eis o que se inscreverá sobre o estandarte da revolta que abaterá Teu templo. Em seu lugar se elevará novo edifício, uma segunda torre de Babel, que ficará sem dúvida inacabada, comoa primeira, mas Tu terias podido poupar aos homens essa nova tentativa e mil anos de sofrimento. Porque eles virão procurar-nos, depois de ter penado mil anos para construir sua torre! Virão procurar-nos sob a Terra como outrora, nas catacumbas onde estaremos escondidos (irão nos perseguir de novo) e clamarão: “Dai-nos de comer, porque aqueles que nos tinham prometido o fogo do Céu não o deram para nós”. Então, acabaremos a torre deles, porque para isso basta apenas o alimento, e nós os nutriremos, utilizando-nos falsamente de Teu nome, e os faremos crescer. Sem nós, estarão sempre famintos. Nenhuma ciência lhes dará pão enquanto permanecerem livres, mas acabarão por depositá-la a nossos pés, essa liberdade, dizendo: “Reduzi-nos à servidão,contando que nos alimenteis.” Compreenderão por fim que a liberdade e o pão da Terra à vontade para cada um são inconciliáveis, porque jamais saberão reparti-los entre si! Irão convencer-se também de sua impotência para ser livres sendo fracos, depravados, nulos e revoltados. Tu lhes prometias o pão do Céu; ainda uma vez, é ele comparável ao da Terra aos olhos da fraca raça humana, eternamente ingrata e depravada? Milhares e dezenas de milhares de almas seguir-Te-ão por causa desse pão, mas o que acontecerá aos milhões e bilhões que não terão a coragem de preferir o pão do Céu ao da Terra? Será que preferes os grandes e os fortes, aos quais os outros, a multidão inumerável,que é fraca, mas Te ama, só serviria de matéria explorável? Eles também nos são queridos, os seres fracos. Embora depravados e revoltados, irão tornar-se finalmente dóceis. Ficarão espantados e acreditarão que somos deuses por ter consentido, pondo-nos a comandá-los,em assumir a liberdade que os atemorizava e reinar sobre eles , de modo que, ao final, terão medo de ser livres. Mas lhes diremos que somos Teus discípulos e reinamos em Teu nome. Iremos enganá-los de novo, porque então não deixaremos que Te aproximes de nós. E será essa impostura que constituirá nosso sofrimento, porque será preciso que mintamos. Este é o sentido da primeira pergunta que Te foi feita no deserto, e eis o que rejeitaste em nome da liberdade, que punhas acima de tudo. No entanto, ela ocultava o segredo do mundo. Consentindo no milagre dos pães, terias acalmado a eterna inquietação da humanidade – indivíduos e coletividade -, isto é: ‘Diante de quem se inclinar?’”.

(fragmento de  O grande Inquisidor, de Os irmãos Karamazov, Dostoiévski)

 (notas de Dostoiévski para o quinto capítulo de Os irmãos Karamazov)

DIA INTERNACIONAL DO LIVRO: SHAKESPEARE E CERVANTES


O dia do livro começou a ser comemorado na Espanha, em 1926, a sete de outubro, dia do nascimento de Cervantes. Em 1930, a data passou a ser 23 de abril, dia da morte de Cervantes (Alcalá de Henares, 29 de setembro de 1547 – Madrid, 23 de abril de 1616). Em 1996, a UNESCO instituiu o Dia Internacional do Livro a ser comemorado em 23 de abril, também data da morte de William Shakespeare (Stratfor-upon-Avon, 26 de abril de 1545 – Stratfor-upon-Avon, 23 de abril de 1616). [tais datas são sempre questões, veja que o nascimento de Cervantes varia, e também o de Shakespeare, considerando inclusive que o calendário usado na época na Espanha e na Inglaterra era diverso - juliano na última e gregoriano na primeira. De qualquer maneira, hoje, estabeleceu-se o consenso de considerar o 23 de abril de 1616, a data de morte dos dois ícones da literatura]

HAMLET:
“Ser ou não ser, eis a questão! Que é mais nobre para o espírito: sofrer os dardos e setas de um ultrajante fado, ou tomar armas contra um mar de calamidades para pôr-lhes fim, resistindo? Morrer... dormir; nada mais! E com o sono,dizem, terminamos o pesar do coração e os mil naturais conflitos que constituem a herança da carne! Que fim poderia ser mais devotamente desejado? Morrer... dormir! Dormir!... Talvez sonhar! Sim, eis aí a dificuldade! Porque é forçoso que nos detenhamos a considerar que sonhos possam sobrevir durante o sono da morte, quando nos tenhamos libertado do torvelinho da vida. Aí está a reflexão que torna uma calamidade a vida assim tão longa! Porque, senão, quem suportaria os ultrajes e desdéns do tempo, a injúria do opressor, a afronta do soberbo, as angústias do amor desprezado, a morosidade d alei, as insolências do poder e as humilhações que o paciente mérito recebe do homem indigno, quando ele próprio pudesse encontrar quietude com um simples estilete? Quem gostaria de suportar tão duras cargas, gemendo e suando sob o peso de uma vida afanosa, esse não fosse o temor de alguma coisa depois da morte, região misteriosa de onde nenhum viajante jamais voltou, confundindo nossa vontade e impelindo-nos a suportar aqueles males que nos afligirem, ao invés de nos atirarmos a outros que desconhecemos? E é assim que a consciência nos transforma em covarde e é assim que  o primitivo verdor de nossas resoluções se estiola na pá da sombra do pensamento e é assim que as empresas de maior alento e importância, com tais reflexões,desviam seu curso e deixam de ter o nome de ação... Agora, silêncio!... A bela Ofélia! Ninfa, em tuas orações, recorda-te de meus pecados!


 In Hamlet, Príncipe da Dinamarca, William Shakespeare, Editor Victor Civita, RJ, 1978.


“A isso respondeu Sancho:
Escreva-a Vossa Mercê duas ou três vezes aí no livro, e dê-mo, que eu o levarei bem guardado; porque pensar que eu possa tomar isso de cor é disparate; sou tão farto de memória, que às vezes me chega a esquecer como me chamo. Mas diga-a sempre, que estimo muito ouvi-la; há de ser, que nem de letra redonda.
- Ora escuta: reza assim – disse D. Quixote
CARTA DE D. QUIXOTE A DULCINÉIA DEL TOBOSO
‘Soberana e alta senhora!
O ferido do gume da ausência, e o chagada nas telas do coração, dulcíssima Dulcinéia del Toboso, te envia saudar, que a ele lhe falta.
Se a tua formosura me despreza, se o teu valor me não vale, e se os teus desdéns se apuram com a minha firmeza, não obstante ser eu muito sofrido, mal poderei com estes pesares, que, além de muito graves, já vão durando em demasia.
 O meu bom escudeiro Sancho te dará inteira relação, ó minha bela ingrata, amada inimiga minha, do modo como eu fico por teu respeito. Se  te parecer acudir-me, teu sou; e, se não, faze o que mais te aprouver, pois com acabar a minha vida terei satisfeito à tua crueldade  ao meu desejo.
Teu até à morte
O Cavaleiro da Triste Figura
- Por vida de meu pai – disse Sancho acabada a leitura da carta – que esta é a mais sublime coisa que nunca ouvi. Aí diz Vossa Mercê tudo quanto quer; e como encaixa bem para assinatura aquilo do Cavaleiro da Triste Figura! Digo a verdade, que Vossa Mercê é o próprio diabo em carne e osso; não há nada que não saiba.
- Tudo é necessário para o ofício que exerço – disse D. Quixote”.


In O engenho Fidalgo Don Quixote de la Mancha, Miguel de Cervantes Saavedra, Logos, SP, 1955.

domingo, 22 de abril de 2012

A CARTA


A história oficial conta que a 22 de abril de 1500 chegou a estas terras a expedição portuguesa de Pedro Álvares Cabral, que queria chegar à Índia. Encontraram aqui uma gente... E uma terra. E decidiram que ambas lhes pertenciam. A carta enviada à Sua Majestade portuguesa, para que não se perdesse tempo e assumisse a posse, é um dos textos que mais me emociona. Sempre. E ainda não consigo discernir claramente o emaranhado de emoções que me domina a cada vez. De uma coisa tenho certeza: bela e sábia gente brasileira. Passados mais de quinhentos anos de exploração e expropriação, percebo que a alma da gente e da terra resiste! Apesar de tudo, essa alma não se tornou mercadoria. Penso também que recomeçamos, exatamente neste agora, outro tempo. Que consigamos escrever a história de hoje com precisão e verdade. À brasileira... 

(...)
“Neste dia, a horas de véspera, houvemos vista de terra! Primeiramente dum grande monte, mui alto e redondo; e doutras serras mais baixas ao sul dele; e de terra chã, com grandes arvoredos: ao monte alto o capitão pôs nome o Monte Pascoal e à terraa Terra da Vera Cruz. (...)  Eram pardos, todos nus, sem coisa alguma que lhes cobrisse suas vergonhas. Nas mãos traziam arcos com suas setas. Vinham todos rijos sobre o batel; e Nicolau Coelho lhes fez sinal que pousassem os arcos. E eles os pousaram. Somente deu-lhes um barrete vermelho e uma carapuça de linho que levava na cabeça e um sombreiro preto. Um deles deu-lhe um sombreiro de penas de ave, compridas, com uma copazinha de penas vermelhas e pardas como de papagaio; e outro deu-lhe um ramal grande de continhas brancas, miúdas, que querem parecer de aljaveira, as quais peças creio que o Capitão manda a Vossa Alteza. (...) A feição deles é serem pardos, maneira de avermelhados, de bons rostos e bons narizes, bem feitos. Andam nus, sem nenhuma cobertura. Nem estimam de cobrir ou de mostrar suas vergonhas; e nisso têm tanta inocência como em mostrar o rosto. Ambos traziam os beiços de baixo furados e metidos neles seus ossos brancos e verdadeiros, de comprimento duma mão travessa, da grossura dum fuso de algodão, agudos na ponta como um furador. Os cabelos seus são corredios. (...) Viu um deles umas contas de rosário, brancas; acenou que lhas dessem, folgou muito com elas, e lançou-as ao pescoço. Depois tirou-as e enrolou-as no braço e acenava para a terra e de novo para as contas e para o colar do Capitão, como dizendo que dariam ouro por aquilo. Isto tomávamos nós assim por assim o desejarmos. Mas se ele queria dizer que levaria as contas e mais o colar, isto não o queríamos nós entender, porque não lho havíamos de dar. E depois tornou as contas a quem lhas dera. 


(...) Aí andavam outros, quartejados de cores, a saber, metade deles da sua própria cor, e metade de tintura preta, a modos de azulada; e outros quartejados de escaques. Ali andavam entre eles três ou quatro moças, bem moças e bem gentis, com cabelos muito pretos, compridos pelas espáduas, e suas vergonhas tão altas, tão cerradinhas e tão limpas das cabeleiras que, de as muito bem olharmos, não tínhamos nenhuma vergonha. Ali por então não houve mais fala ou entendimento com eles, por a barbaria deles ser tamanha, que se não entendia nem ouvia ninguém. (...) Ao domingo de Pascoela pela manhã, determinou o Capitão de ir ouvir missa e pregação naquele ilhéu. (...) Neste ilhéu, onde fomos ouvir missa e pregação, a água espraia muito, deixando muita areia e muito cascalho a descoberto. Andamos por aí vendo a ribeira, a qual é de muita água e muito boa. Ao longo dela há muitas palmas, não muito altas, em que há muito bons palmitos. Colhemos e comemos deles muitos. (...) Além do rio, andavam muitos deles dançando e folgando, uns diante dos outros, sem se tomarem pelas mãos. E faziam-no bem. Passou-se então além do rio Diogo Dias, almoxarife que foi de Sacavém, que é homem gracioso e de prazer; e levou consigo um gaiteiro nosso com sua gaita. E meteu-se com eles a dançar, tomando-os pelas mãos; e eles folgavam e riam, e andavam com ele muito bem ao som da gaita. Depois de dançarem, fez-lhes ali, andando no chão, muitas voltas ligeiras, e salto real, de que eles se espantavam e riam e folgavam muito. E conquanto com aquilo muito os segurou e afagou, tomavam logo uma esquiveza como de animais monteses, e foram-se para cima. (...) Porém e com tudo isso andam muito bem curados e muito limpos. E naquilo me parece ainda mais que são como aves ou alimárias monteses, às quais faz o ar melhor pena e melhor cabelo que às mansas, porque os corpos seus são tão limpos, tão gordos e tão formosos, que não pode mais ser. (...) E deram-lhe arcos e setas; e não lhe tomaram nenhuma coisa do seu. Antes – disse ele – que um lhe tomara umas continhas amarelas, que levava, e fugia com elas, e ele se queixou e os outros foram logo após, e lhas tomaram e tornaram-lhas a dar; e então mandaram-no vir. (...) E, segundo diziam esses que lá foram, folgavam com eles. Neste dia os vimos mais de perto e mais à nossa vontade, por andarmos quase todos misturados. (...) Diziam que em cada casa se recolhiam trinta ou quarenta pessoas, e que assim os achavam; e que lhes davam de comer daquela vianda, que eles tinham, a saber, muito inhame e outras sementes, que na terra há e eles comem. Mas, quando se fez tarde fizeram-nos logo tornar a todos e não quiseram que lá ficasse nenhum. (...) Estavam na praia, quando chegamos, obra de sessenta ou setenta sem arcos e sem nada. Tanto que chegamos, vieram logo para nós, sem se esquivarem. Depois acudiram muitos, que seriam bem duzentos, todos sem arcos; e misturaram-se todos tanto conosco que alguns nos ajudavam a acarretar lenha e a meter nos batéis. E lutavam com os nossos e tomavam muito prazer. (...) 


Andavam todos tão dispostos, tão bem-feitos e galantes com suas tinturas, que pareciam bem. Acarretavam dessa lenha, quanta podiam, com mui boa vontade, e levavam-na aos batéis. (...) Andavam já mais mansos e seguros entre nós, do que nós andávamos entre eles. (...) Eles não lavram, nem criam. Não há aqui boi, nem vaca, nem cabra, nem ovelha, nem galinha, nem qualquer outra alimária, que costumada seja ao viver dos homens. Nem comem senão desse inhame, que aqui há muito, e dessa semente e frutos, que a terra e as árvores de si lançam. E com isto andam tais e tão rijos e tão nédios, que o não somos nós tanto, com quanto trigo e legumes comemos. (...) Neste dia, enquanto ali andaram, dançaram e bailaram sempre com os nossos, ao som dum tamboril dos nossos, em maneira que são muito mais nossos amigos que nós seus. (...) Se lhes homem acenava se queriam vir às naus, faziam-se logo prestes para isso, em tal maneira que, se a gente todos quisera convidar, todos vieram. Eram já aí alguns deles, obra de setenta ou oitenta; e, quando nos viram assim vir, alguns se foram meter debaixo dela, para nos ajudar. (...) E quando veio ao Evangelho, que nos erguemos todos em pé, com as mãos levantadas, eles se levantaram conosco e alçaram as mãos, ficando assim, até ser acabado; e então tornaram-se a assentar como nós. E quando levantaram a Deus, que nos pusemos de joelhos, eles se puseram assim todos, como nós estávamos com as mãos levantadas, e em tal maneira sossegados, que, certifico a Vossa Alteza, nos fez muita devoção. (...) De ponta a ponta, é toda praia parma, muito chã e muito formosa. Pelo sertão nos pareceu, vista do mar, muito grande, porque, a estender olhos, não podíamos ver senão terra com arvoredos, que nos parecia muito longa. (...) Porém a terra em si é de muito bons ares, assim frios e temperados como os de Entre Douro e Minho, porque neste tempo de agora os achávamos como os de lá.  Águas são muitas; infindas. E em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo, por bem das águas que tem.
Beijo as mãos de Vossa Alteza.
Deste Porto Seguro, da Vossa Ilha de Vera Cruz, hoje, sexta-feira, primeiro dia de maio de 1500.”


sábado, 21 de abril de 2012

NESTA SEMANA HOUVE:

1.
Retratos de Carolina, de Lygia Bojunga.
Como sempre, um deleite, com boas surpresas. Sem meias palavras, e uma porção de palavras generosas. Retratos de Carolina também surpreende pela ousadia da experimentação com a escrita. Sem estranhezas: personagem, autor, autorpersonagem, personagemautor... Delícias de Lygia. 

 “Agora, recém-chegado aos quarenta, o Homem Certo já mostra na cara e já sente no bolso um certo ar de fim de festa, e cada vez que se lembra que só tem mais um parente devotado pra morrer, a cara mostra mais um bocadinho do apagar das luzes.
Mas a Carolina só conheceu o Homem Certo agora: não pode comparar o que ele é com o que ele foi. Resultado: se enfeitiçou. E quando ele disse, vamos casar! Não quero mais esperar  pra você ser minha, exclusivamente minha, a Carolina (sem achar esquisito nem nada de passar a ser de alguém depois de vinte e um anos sendo dela) só perguntou:
- E a Eduarda?
Ele já ia respondendo, você é a Eduarda. Mas se segurou a tempo e respondeu a pergunta com um afago sedutor.”

In Retratos de Carolina, Lýgia Bojunga, Casa Lygia Bojunga, RJ,2008

 2.
Os verbos auxiliares do coração, de Péter Esterházy.
Um encontro. Tudo novo. Também a experimentação com a escrita, e meu encanto por isso. E o sentimento doloroso de ser. A beleza disso também. E tudo diante de morte. A morte e o amor. A vida e a sozinhez. Livro que dá uma vontade danada de inventar. Grande encontro.
“Eu não anseio pelo mundo do além. Quero dizer, em princípio. Penso que nem Deus espera isso de nós. Não o quero incomodar, não escrevo: o seu Deus. Eu não tenho nenhum problema com Deus, não o odeio por não existir.
Às vezes, me esqueço que estou viva. Sento-me entre os travesseiros empilhados e converso com Deus. Ele se parece com Vilire Tátray, sem o violino. Mas, quando estou sentada sobre a banqueta baixa,e debaixo da cama os montes de poeira mal rolam entre as frestas do assoalho,ele sempre me ocorre – e nessas horas sinto também que estou viva. Pois então. Quero ainda que você saiba que escorreu sangue do meu nariz, no jardim. Encostei a cadeira no monte de areia, foi lá. A areia ficou toda preta de sangue,deixei a cabeça pendente, o sangue pingava, não tive coragem de me curvar para trás,conforme se prescreve, porque receava me afogar,como o nosso rei Átila. O gesto com que  toquei o nariz, depois, para raspar as placas de sangue grudadas, foi muito estranho para mim – tremia! Tremia!
Me alegras, em especial,dormir sozinha. Deito-me sozinha na cama dura, ponho a mão debaixo da nuca, e penso em você, meu filhinho.”

In Os verbos auxiliares do coração, Pétr Esterházy, CosacNaify, SP, 2011.

The answer, my friend...


Just!!

Eu vi o Bob Dylan… dipertim!! SHOWSAÇO!... Som pra ninguém botar defeito, e mil defeitos pra todo mundo que não sabe nada da história, do mito, da origem, DO CARA! Produção: nenhuma (nem uma telinhazinha pra consolo da minha filha). Papo: nenhum (como desde sempre... pra quê?). Mega sucessos: nem pensar...  Mas uma  ‘Like a rolling Stone’ pra emocionar todo mundo ( até ele pôs a mãozinha no coração). Tava ‘assim ó’ de gente, lugar pra nem mais uma alma, e todo mundo cantando. O que então? MÚSICA, MÚSICA E MÚSICA. Do jeitim que ele sempre quer, ou seja, do jeito dele. Sem concessões. Mas o som, cara, cê nem imagina, maraaavilhoso!, até naquela porcaria do Chevrolet Hall. Oh, Deus... Quem foi que falou que o cara não tá cantando??? (já sei... quem nunca ouviu Bob Dylan). Arranjos novos, novíssimos, músicas desconhecidas. Rock (rockíssimo), blues, country, jazz... tudo junto e misturado, fazendo O SOM, com direito à gaita (gaitíssima) e aquele carisma que só quem tem mais de cinquenta conhece. Então, é isso... Meninos, eu vi! Ou melhor... eu ouvi. Melhor vocês todos conhecerem. Melhor. Êta vida boa, meu Deus!

Teve até bis, acredita?

How does it feel
How does it feel
To be without a home
Like a complete unknown
Like a rolling stone?
Like a rolling Stone...

 Eu me sinto ótima!

sexta-feira, 20 de abril de 2012

SEMANA ‘QUASE-SER-TÃO’: Mia Couto



“Nunca quis. Nem muito, nem parte. Nunca fui eu, nem dona, nem senhora. Sempre fiquei entre o meio e a metade. nunca passei de meios caminhos, meios desejos, meia saudade. daí o meu nome: Maria Metade.
Fosse eu invocada por voz de macho. Fosse eu retirada da ausência por desejo de alguém. Me tivesse calhado, ao menos, um homem completo, pessoa acabada. Mas não, me coube a metade de um homem. Se diz, de língua girada: o meu cara-metade. Pois aquele, nem meu, nem cara. E se metade fosse, não seria só a cara, mas todo ele, um semimacho. Para ambos sermos casal, necessitaríamos, enfim, de sermos quatro.”

In O fio das missangas, Mia Couto, Companhia das Letras, SP, 2009.