segunda-feira, 23 de abril de 2012

DIA INTERNACIONAL DO LIVRO: SHAKESPEARE E CERVANTES


O dia do livro começou a ser comemorado na Espanha, em 1926, a sete de outubro, dia do nascimento de Cervantes. Em 1930, a data passou a ser 23 de abril, dia da morte de Cervantes (Alcalá de Henares, 29 de setembro de 1547 – Madrid, 23 de abril de 1616). Em 1996, a UNESCO instituiu o Dia Internacional do Livro a ser comemorado em 23 de abril, também data da morte de William Shakespeare (Stratfor-upon-Avon, 26 de abril de 1545 – Stratfor-upon-Avon, 23 de abril de 1616). [tais datas são sempre questões, veja que o nascimento de Cervantes varia, e também o de Shakespeare, considerando inclusive que o calendário usado na época na Espanha e na Inglaterra era diverso - juliano na última e gregoriano na primeira. De qualquer maneira, hoje, estabeleceu-se o consenso de considerar o 23 de abril de 1616, a data de morte dos dois ícones da literatura]

HAMLET:
“Ser ou não ser, eis a questão! Que é mais nobre para o espírito: sofrer os dardos e setas de um ultrajante fado, ou tomar armas contra um mar de calamidades para pôr-lhes fim, resistindo? Morrer... dormir; nada mais! E com o sono,dizem, terminamos o pesar do coração e os mil naturais conflitos que constituem a herança da carne! Que fim poderia ser mais devotamente desejado? Morrer... dormir! Dormir!... Talvez sonhar! Sim, eis aí a dificuldade! Porque é forçoso que nos detenhamos a considerar que sonhos possam sobrevir durante o sono da morte, quando nos tenhamos libertado do torvelinho da vida. Aí está a reflexão que torna uma calamidade a vida assim tão longa! Porque, senão, quem suportaria os ultrajes e desdéns do tempo, a injúria do opressor, a afronta do soberbo, as angústias do amor desprezado, a morosidade d alei, as insolências do poder e as humilhações que o paciente mérito recebe do homem indigno, quando ele próprio pudesse encontrar quietude com um simples estilete? Quem gostaria de suportar tão duras cargas, gemendo e suando sob o peso de uma vida afanosa, esse não fosse o temor de alguma coisa depois da morte, região misteriosa de onde nenhum viajante jamais voltou, confundindo nossa vontade e impelindo-nos a suportar aqueles males que nos afligirem, ao invés de nos atirarmos a outros que desconhecemos? E é assim que a consciência nos transforma em covarde e é assim que  o primitivo verdor de nossas resoluções se estiola na pá da sombra do pensamento e é assim que as empresas de maior alento e importância, com tais reflexões,desviam seu curso e deixam de ter o nome de ação... Agora, silêncio!... A bela Ofélia! Ninfa, em tuas orações, recorda-te de meus pecados!


 In Hamlet, Príncipe da Dinamarca, William Shakespeare, Editor Victor Civita, RJ, 1978.


“A isso respondeu Sancho:
Escreva-a Vossa Mercê duas ou três vezes aí no livro, e dê-mo, que eu o levarei bem guardado; porque pensar que eu possa tomar isso de cor é disparate; sou tão farto de memória, que às vezes me chega a esquecer como me chamo. Mas diga-a sempre, que estimo muito ouvi-la; há de ser, que nem de letra redonda.
- Ora escuta: reza assim – disse D. Quixote
CARTA DE D. QUIXOTE A DULCINÉIA DEL TOBOSO
‘Soberana e alta senhora!
O ferido do gume da ausência, e o chagada nas telas do coração, dulcíssima Dulcinéia del Toboso, te envia saudar, que a ele lhe falta.
Se a tua formosura me despreza, se o teu valor me não vale, e se os teus desdéns se apuram com a minha firmeza, não obstante ser eu muito sofrido, mal poderei com estes pesares, que, além de muito graves, já vão durando em demasia.
 O meu bom escudeiro Sancho te dará inteira relação, ó minha bela ingrata, amada inimiga minha, do modo como eu fico por teu respeito. Se  te parecer acudir-me, teu sou; e, se não, faze o que mais te aprouver, pois com acabar a minha vida terei satisfeito à tua crueldade  ao meu desejo.
Teu até à morte
O Cavaleiro da Triste Figura
- Por vida de meu pai – disse Sancho acabada a leitura da carta – que esta é a mais sublime coisa que nunca ouvi. Aí diz Vossa Mercê tudo quanto quer; e como encaixa bem para assinatura aquilo do Cavaleiro da Triste Figura! Digo a verdade, que Vossa Mercê é o próprio diabo em carne e osso; não há nada que não saiba.
- Tudo é necessário para o ofício que exerço – disse D. Quixote”.


In O engenho Fidalgo Don Quixote de la Mancha, Miguel de Cervantes Saavedra, Logos, SP, 1955.

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