terça-feira, 17 de abril de 2012

LIVROS: ‘crônica de um século’


O VERMELHO E O NEGRO. O primeiro livro que voltei à primeira página assim que terminei a última frase. Parecia terrível ter terminado de lê-lo. Para muitos, um dos maiores romances de todos os tempos. Não consigo dizer isso porque o paraíso é infinito e é uma biblioteca, mas O vermelho e o negro ocupa certamente toda uma dimensão do céu. Julien Sorel é, para mim, o personagem mais bem construído da literatura. Digo melhor: o personagem que eu mais amo. O que é o vermelho e o negro? Quem sabe? Ninguém se atreve explicitamente. É certo que conhecemos melhor o século XIX (subtítulo do livro) aqui que em qualquer livro de história. Publicado em 1830, escrito por Marie-Henry Beyle, STENDHAL.
 Ilustração de Henri Dubouchet


“_ Então, preguiçoso! Hás de estar sempre lendo esses malditos livros quando estás de guarda à serra: Lê de noite, quando vais perder o teu tempo com o cura, e chega!
Julien, embora atordoado com a força da pancada, e todo ensanguentado, aproximou-se do seu lugar, ao lado da serra. Tinha os olhos em lágrimas, menos por causa da dor física do que pela perda do livro que adorava.
- Desce, animal, que eu quero falar contigo.
O ruído da máquina impediu-o outra vez de ouvir a ordem. O pai, que descera, não querendo dar-se o trabalho de tornar a subir no mecanismo, foi buscar uma vara comprida de derrubar nozes e com ela bateu-lhe no ombro. Assim que Julien chegou ao chão, o velho Sorel, enxotando-o rudemente de perto de si, empurrou-o para a casa.
“Sabe Deus o que irá ele fazer comigo”, pensava o moço.
Ao passar, olhou tristemente o regato onde o livro caíra – era, de todos, o que mais prezava, O memorial da Santa Helena.
Estava com as faces vermelhas e de olhos baixo. Era um jovem pequeno, de dezoito a dezenove anos, de aparência franzina, com traços irregulares, mas delicados, e o nariz aquilino. Os grandes olhos negros, que nos momentos tranquilos indicavam reflexão e fogo interior, estavam animados, naquele instante, pela mais feroz expressão de ódio. Cabelos castanho-escuros, implantados muito baixo, davam-lhe uma fronte pequena e, nos momentos de cólera, um ar de maldade. Dentre as inumeráveis variedades da fisionomia humana, talvez não exista uma que se distinga por tão notável singularidade. Um talhe esbelto e bem feito exprimia mais agilidade do que vigor. Desde muito jovem, o seu ar extremamente pensativo e a sua grande palidez haviam dado ao pai a ideia de que não viveria, ou de que viveria para ser uma fardo para a família. Objeto de desprezo de todos de casa, odiava os irmãos e o pai; nos brinquedos dos domingos na praça, era sempre espancado.”

 In O vermelho e o Negro, Stendhal, Abril Cultural, SP, 1979.


 p.s: Existe uma adaptação para o cinema, francesa, de 1954, razoável.Recentemente foi feita uma série para a televisão inglesa, em três episódios, baseada no livro. Reza a lenda que os roteiristas não se atrevem. Confesso que eu sonho com um belo filme, mas...

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