segunda-feira, 16 de abril de 2012

LIVROS: origens;


FAUSTO
(...)
“Apenas tens consciência de um anseio:
A conhecer o outro, oh, nunca aprendas!
Vivem-me duas almas, ah! No seio,
Querem brilhar em tudo opostas sendas;
Uma se agarra, com sensual enleio
É órgãos de ferro, ao mundo e à matéria;
A outra, soltando à força o térreo freio,
De nobres manes busca a plaga etérea.
Ah, se no espaço existem numes,
Que tecem entre céu e terra o seu regime,
Descei dos fluídos de ouro, dos etéreos cumes,
E a nova, intensa vida conduzi-me!
Sim! Fosse meu um manto de magia,
Que a estranhos climas me levasse prestes,
Pelas mais deslumbrantes vestes,
Por mantos reais eu não o trocaria.”
(...)
MEFISTÓFELES
“Não brinques mais com os teus pesares,
Que a tua vida, qual abutres, comem;
Na pior companhia em que te achares,
Entre homens sentirás ser homem,
Mas não digo isso no sentido
De te empurrar por entre a malta.
Não sou lá gente da mais alta;
Mas, se te apraz, a mim unido,
Tomar os passos pela vida,
Pronto estou, sem medida,
A ser teu, neste instante;
Companheiro constante,
E se assim for do teu agrado,
Sou teu lacaio, teu criado!”

(...)
FAUSTO
E com que ofício retribuo os teus?

MEFISTÓFELES
Tens tempo, que isso não se paga à vista.
FAUSTO
Não, não! O diabo é um egoísta
E não fará, só por amor a Deus,
Aquilo que algum outro assista.
Dize bem clara condição;
Traz tal servo perigos ao patrão.

MEFISTÓFELES
Obrigo-me, e te sirvo, eu te secundo,
Aqui, em tudo, sem descaso ou paz;
No encontro nosso, no outro mundo,
O mesmo para mim farás.


FAUSTO
Que importam do outro mundo os embaraços?
Faze primeiro este em pedaços,
Surja o outro após, se assim quiser!
Emana desta terra o meu contento,
E este sol brilha ao meu tormento;
Se deles me tornar isento,
Aconteça o que der e vier.
Nem me interessa ouvir, deveras,
Se há, no além, ódio, amor, estima,
E se há também em tais esferas
Algum ‘embaixo’ e algum ‘em cima’.

(...)
FAUSTO
Se eu me estirar jamais num leito de lazer,
Acabe-se comigo, já!
Se me lograres com deleite
E adulação falsa e sonora,
Para que o próprio Eu preze e aceite,
Seja-me aquela a última hora!
Aposto! E tu?

MEFISTÓFELES
Topo!

FAUSTO
E sem dó nem mora!
Se vier um dia em que ao momento
Disse: “óh, pára!” és tão formoso!
Então algema-me a contento,
Então pereço venturoso!
Repique o sino derradeiro,
A teu serviço ponhas fim,
Pare a hora então, caia o ponteiro,
O Tempo acabe para mim!

(...)
MEFISTÓFELES
“Queres, sem freio ou mira estreita,
Provar de tudo sem medida,
Petiscar algo de fugida?
Bem te valha, o que te deleite!
Porém, agarro-o, sem pieguice!

FAUSTO
“Não penso em alegrias, já to disse.
Entrego-me ao delírio, ao mais cruciante gozo,
Ao fértil dissabor como ao ódio amoroso.
Meu peito, da ânsia do saber curado,
A dor nenhuma fugirá do mundo,
E o que a toda a humanidade é doado,
Quero gozar no próprio Eu, a fundo,
Com a alma lhe colher o vil e o mais perfeito,
Juntar-lhe a dor e o bem estar no peito,
E, destarte, ao seu Ser ampliar meu próprio Ser,
E, com ela, afinal, também eu perecer.


MEFISTÓFELES
“Oh! Crê-mo a mim, a mim que já mastigo,
Desde milênios essa vianda dura,
Que homem algum, do berço até ao jazigo,
Digere a velha levadura!
Podes crer-mo, esse Todo, filho,
Só para um Deus é feito, a quem
Envolve num perene brilho!
A nós, nas trevas pôs, porém,
E a vós, o dia e a noite, só, convém.

FAUSTO:
“Mas quero!”

In Fausto, J. W. Goethe, tradução de Jenny Klabin Segall, Itatiaia, BH, 1997.

Adaptado novamente para o cinema (já não se contam tantas foram feitas), em 2011, “Fausto”, de Alexander Sokurov, falado em alemão, ganhou o Leão de Ouro no 68º Festival de Cinema de Veneza.

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