sexta-feira, 13 de abril de 2012

LIVROS: revoluções:


(...)
1

“Só em 1980 soube-se da morte do filho de Stalin, Iakov, por um artigo publicado no Sunday Times. Prisioneiro de guerra na Alemanha durante a Segunda Guerra Mundial, ele ficou num campo de concentração junto com oficiais ingleses. Tinham latrinas comuns. O filho de Stalin sempre as deixava sujas. Os ingleses não gostavam de ver as latrinas sujas de merda, mesmo que fosse a merda do filho do homem mais poderoso do universo. Chamaram-lhe a atenção. Ficou aborrecido. Repetiram as reclamações e o obrigaram a limpar as latrinas. Ele se zangou, vociferou, brigou. Finalmente pediu uma audiência ao comandante do campo. Queria que ele fosse o árbitro da discussão. Mas o alemão estava muito convencido de sua importância para discutir a respeito de merda. O filho de Stalin não pode suportar a humilhação. Bradando aos céus atrozes palavrões russos, jogou-se contra a cerca de alta tensão que cercava o campo. Deixou-se cair sobre os fios. Seu corpo, que nunca mais sujaria as latrinas britânicas, ficou ali dependurado.
2
O filho de Stalin não teve uma vida fácil. Foi concebido pelo pai com uma mulher que acabou sendo fuzilada por ele. O jovem Stalin era,portanto, ao mesmo tempo filho de Deus (pois seu pai era venerado como Deus) e amaldiçoado por ele. As pessoas tinham-lhe medo em dobro: podia fazer-lhes mal com seu poder (afinal, era o filho de Stalin) e com sua amizade (o pai podia castigar o amigo no lugar do filho repudiado).
A maldição e o privilégio, a felicidade e a desgraça, ninguém mais do que ele sentiu tão concretamente como estes opostos são permutáveis e como é estreita a margem entre os dois pólos da existência humana.
Logo no início da guerra, foi capturado pelos alemães e acusado de porco por prisioneiros provenientes de uma nação que considerava incompreensivelmente fechada e pela qual sempre tivera uma antipatia visceral. Com o podia ele, que carregava nos ombros o mais sublime drama que se possa imaginar (era, ao mesmo tempo, filho de Deus e anjo caído), ser julgado, e, ainda pro cima, julgado por coisas que nada tinham de nobres (relacionadas com Deus e com os anjos), mas por uma questão de merda. O mais nobre dos dramas e o mais trivial dos acontecimentos estariam assim tão próximos?
Tão vertiginosamente próximos? Pode a proximidade causar vertigem?
É claro que sim. Quando o pólo norte se aproximar do pólo sul a ponto de tocá-lo, o planeta desaparecerá e o homem ficará num vazio que o atordoará e o fará ceder à sedução da queda.
Se a maldição e o privilégio são uma só e única coisa, se não existe diferença alguma entre o nobre e o vil, se o filho de Deus pode ser julgado por uma questão de merda, a existência humana perde suas dimensões e adquire uma insustentável leveza. Assim, o filho de Stalin corre para os arames eletrificados e neles se atira, como se jogasse seu corpo no prato de uma balança que sobe, impiedosa, levantado pela leveza infinita de um mundo que perdeu as dimensões. O filho de Stalin perdeu a vida por merda. Mas morrer por merda não é morrer de modo absurdo. Os alemães que sacrificaram a vida para ampliar seu império em direção ao leste, os russos que morreram para que  o poder de seu país se estendesse em direção ao oeste, esses, sim, morreram por uma tolice, e a morte deles é destituída de sentido, de qualquer valor geral. Em contrapartida, a morte do filho de Stalin foi a única morte metafísica em meio à tolice universal que é a guerra”. (...)

In A insustentável leveza do ser, Milan Kundera, editora Nova Fronteira, Rj, 1985.


Milan Kundera nasceu em Praga, na República Tcheca, em 1929. Era estudante quando o regime comunista foi estabelecido em seu país. Trabalhou depois como operário, foi músico de jazz, e, finalmente, dedicou-se à literatura. A publicação de seu primeiro romance, A brincadeira (1967), foi um dos marcos iniciais do movimento de libertação que culminou na Primavera de Praga. Depois da invasão russa de 1968 seus livros foram proibidos. Em 1975 transferiu-se para a França.

 O livro foi um dos maiores sucessos literários da segunda metade de século vinte; criou escola, conseguiu fã clube, seguidores; suscitou esperanças, abriu cabeças. Tornou-se uma referência; e hoje merece nossas reverências mais solenes. Logo foi adaptado para o cinema, e Kaufman fez um belo filme, é inegável (não podemos jamais esquecer que LIVRO é livro, e FILME é filme... não se deve comparar substâncias distintas). Podemos admitir que o encanto provocado pelo livro contaminou o filme, tudo bem. Mas o filme em si também é muito bom; pode ser pelo Daniel Day-Lewis e sua absoluta excentricidade; pela Juliette Binoche florescente... Pela direção delicada. Não importa, vale a pena. 


Duração: 160 minutos (2 horas e 40 minutos)
Direção: Philip Kaufman
Ano: 1988
País de origem: EUA
Elenco: Daniel Day-Lewis (Tomas); Juliette Binoche (Tereza) ; Lena Olin (Sabina) ; Derek De Lint (Franz)


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