domingo, 15 de abril de 2012

LIVROS: tempos



(...)
“Em vez de se dirigir ao castanheiro, o Coronel Aureliano Buendía foi também para a porta da rua e se misturou com os curiosos que contemplavam o desfile. Viu uma mulher vestida de ouro no cangote de um elefante. Viu um dromedário triste. Viu um urso vestido de holandês que marcava o  compasso da música com uma concha e uma caçarola. Viu os palhaços virando cambalhotas no final do desfile e viu outra vez a cara da sua solidão miserável quando tudo acabou de passar e não ficou senão o luminoso espaço na rua e o ar cheio de tanajuras e uns quantos curiosos próximos ao precipício da incerteza.  Então foi para o castanheiro, pensando no circo, e enquanto urinava tentou continuar pensando no circo, mas já não encontrou a lembrança. Meteu a cabeça entre os ombros, como um frango, e ficou imóvel com a testa apoiada no troco do castanheiro. A família não sobe de nada até o dia seguinte, às onze da manhã, quando Santa Sofía de la Piedad foi jogar o lixo no quintal e lhe chamou a atenção o fato de estarem baixando os urubus.”

(...)
“De repente, como um estampido naquele mundo de inconsciência feliz, chegou a noticia da volta de Gastón. Aureliano e Amaranta Úrsula abriram os olhos, sondaram as almas, se olharam na cara com a mão no coração e compreenderam que estavam tão identificados que preferiam a morte à separação. Então, ela escreveu ao marido uma carta de verdades contraditórias, na qual reiterava o seu amor e as suas ânsias de tornar a vê-lo, ao mesmo que admitia como um desígnio fatal a impossibilidade de viver sem Aureliano. Ao contrário do que ambos esperavam, Gastón mandou uma resposta tranquila, quase paternal, com duas folhas inteiras consagradas a preveni-los contra s veleidades da paixão e um parágrafo final com votos inequívocos de fosse tão felizes como ele o tinha sido na sua breve experiência conjugal.”

In Cem anos de Solidão, Gabriel Garcia Marques, Record, SP, 1978.

Nenhum comentário:

Postar um comentário