sábado, 21 de abril de 2012

NESTA SEMANA HOUVE:

1.
Retratos de Carolina, de Lygia Bojunga.
Como sempre, um deleite, com boas surpresas. Sem meias palavras, e uma porção de palavras generosas. Retratos de Carolina também surpreende pela ousadia da experimentação com a escrita. Sem estranhezas: personagem, autor, autorpersonagem, personagemautor... Delícias de Lygia. 

 “Agora, recém-chegado aos quarenta, o Homem Certo já mostra na cara e já sente no bolso um certo ar de fim de festa, e cada vez que se lembra que só tem mais um parente devotado pra morrer, a cara mostra mais um bocadinho do apagar das luzes.
Mas a Carolina só conheceu o Homem Certo agora: não pode comparar o que ele é com o que ele foi. Resultado: se enfeitiçou. E quando ele disse, vamos casar! Não quero mais esperar  pra você ser minha, exclusivamente minha, a Carolina (sem achar esquisito nem nada de passar a ser de alguém depois de vinte e um anos sendo dela) só perguntou:
- E a Eduarda?
Ele já ia respondendo, você é a Eduarda. Mas se segurou a tempo e respondeu a pergunta com um afago sedutor.”

In Retratos de Carolina, Lýgia Bojunga, Casa Lygia Bojunga, RJ,2008

 2.
Os verbos auxiliares do coração, de Péter Esterházy.
Um encontro. Tudo novo. Também a experimentação com a escrita, e meu encanto por isso. E o sentimento doloroso de ser. A beleza disso também. E tudo diante de morte. A morte e o amor. A vida e a sozinhez. Livro que dá uma vontade danada de inventar. Grande encontro.
“Eu não anseio pelo mundo do além. Quero dizer, em princípio. Penso que nem Deus espera isso de nós. Não o quero incomodar, não escrevo: o seu Deus. Eu não tenho nenhum problema com Deus, não o odeio por não existir.
Às vezes, me esqueço que estou viva. Sento-me entre os travesseiros empilhados e converso com Deus. Ele se parece com Vilire Tátray, sem o violino. Mas, quando estou sentada sobre a banqueta baixa,e debaixo da cama os montes de poeira mal rolam entre as frestas do assoalho,ele sempre me ocorre – e nessas horas sinto também que estou viva. Pois então. Quero ainda que você saiba que escorreu sangue do meu nariz, no jardim. Encostei a cadeira no monte de areia, foi lá. A areia ficou toda preta de sangue,deixei a cabeça pendente, o sangue pingava, não tive coragem de me curvar para trás,conforme se prescreve, porque receava me afogar,como o nosso rei Átila. O gesto com que  toquei o nariz, depois, para raspar as placas de sangue grudadas, foi muito estranho para mim – tremia! Tremia!
Me alegras, em especial,dormir sozinha. Deito-me sozinha na cama dura, ponho a mão debaixo da nuca, e penso em você, meu filhinho.”

In Os verbos auxiliares do coração, Pétr Esterházy, CosacNaify, SP, 2011.

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