segunda-feira, 23 de abril de 2012

O LIVRO:


Que Dostoiévski é dono de um universo inteiro já o declarou Fernando Pessoa. Nós temos apenas que dizer 'amém'. Destacar um astro num universo é tarefa insana, certamente. Mas somos insanos, é certo. Enfim, O grande Inquisidor, o discurso de Ivan Karamazov, é uma estrela absoluta, arrebatadora, dentro do universo dostoiéskiano. É o que sugerimos para encerrar esta estação de comemoração do LIVRO.  

 (...)
“Mas, Tu não quiseste privar o homem da liberdade e recusaste, achando que ela era incompatível com a obediência comprada por meio de pães. Replicaste que o homem não vive somente de pão; mas sabes que, em nome desse pão terrestre, o Espírito da Terra se insurgirá contra Ti, lutará e Te vencerá, que todos o seguirão, gritando: “Quem é semelhante a esse animal? Ele nos deu o fogo do Céu!”Séculos passarão e a humanidade proclamará pela boca de seus sábios e de seus intelectuais que não há crimes e, por conseguinte, não há pecado; só há famintos. “Nutre-os e então exige deles que sejam virtuosos!” eis o que se inscreverá sobre o estandarte da revolta que abaterá Teu templo. Em seu lugar se elevará novo edifício, uma segunda torre de Babel, que ficará sem dúvida inacabada, comoa primeira, mas Tu terias podido poupar aos homens essa nova tentativa e mil anos de sofrimento. Porque eles virão procurar-nos, depois de ter penado mil anos para construir sua torre! Virão procurar-nos sob a Terra como outrora, nas catacumbas onde estaremos escondidos (irão nos perseguir de novo) e clamarão: “Dai-nos de comer, porque aqueles que nos tinham prometido o fogo do Céu não o deram para nós”. Então, acabaremos a torre deles, porque para isso basta apenas o alimento, e nós os nutriremos, utilizando-nos falsamente de Teu nome, e os faremos crescer. Sem nós, estarão sempre famintos. Nenhuma ciência lhes dará pão enquanto permanecerem livres, mas acabarão por depositá-la a nossos pés, essa liberdade, dizendo: “Reduzi-nos à servidão,contando que nos alimenteis.” Compreenderão por fim que a liberdade e o pão da Terra à vontade para cada um são inconciliáveis, porque jamais saberão reparti-los entre si! Irão convencer-se também de sua impotência para ser livres sendo fracos, depravados, nulos e revoltados. Tu lhes prometias o pão do Céu; ainda uma vez, é ele comparável ao da Terra aos olhos da fraca raça humana, eternamente ingrata e depravada? Milhares e dezenas de milhares de almas seguir-Te-ão por causa desse pão, mas o que acontecerá aos milhões e bilhões que não terão a coragem de preferir o pão do Céu ao da Terra? Será que preferes os grandes e os fortes, aos quais os outros, a multidão inumerável,que é fraca, mas Te ama, só serviria de matéria explorável? Eles também nos são queridos, os seres fracos. Embora depravados e revoltados, irão tornar-se finalmente dóceis. Ficarão espantados e acreditarão que somos deuses por ter consentido, pondo-nos a comandá-los,em assumir a liberdade que os atemorizava e reinar sobre eles , de modo que, ao final, terão medo de ser livres. Mas lhes diremos que somos Teus discípulos e reinamos em Teu nome. Iremos enganá-los de novo, porque então não deixaremos que Te aproximes de nós. E será essa impostura que constituirá nosso sofrimento, porque será preciso que mintamos. Este é o sentido da primeira pergunta que Te foi feita no deserto, e eis o que rejeitaste em nome da liberdade, que punhas acima de tudo. No entanto, ela ocultava o segredo do mundo. Consentindo no milagre dos pães, terias acalmado a eterna inquietação da humanidade – indivíduos e coletividade -, isto é: ‘Diante de quem se inclinar?’”.

(fragmento de  O grande Inquisidor, de Os irmãos Karamazov, Dostoiévski)

 (notas de Dostoiévski para o quinto capítulo de Os irmãos Karamazov)

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