sexta-feira, 6 de abril de 2012

Para o grupo de estudos:


(...)
“No ponto em que eu percebo a minha existência como doce, a minha sensação é atravessada por um com-sentir que a desloca e deporta para o amigo, para o outro mesmo. A amizade é essa des-subjetivação no coração mesmo da sensação mais íntima de si. (...) Em termos modernos se poderia dizer que ‘amigo’ é um existencial e não um categorial. Mas esse existencial – como tal, não-conceitualizável – é atravessado, entretanto, por uma intensidade que o carrega de algo como uma potência política. Essa intensidade é o syn, o ‘com’ que divide, dissemina e torna condivisível – ou melhor, já sempre condividida – a sensação mesma, a doçura mesma de existir. (...) Os amigos não condividem algo (um nascimento, uma lei, um lugar, um gosto): eles são com-divididos pela experiência da amizade. A amizade é a condivisão que precede toda divisão, porque aquilo que há pra repartir é o próprio fato de existir, a própria vida. E é essa partilha sem objeto, esse com-sentir originário que constitui a política.
Como essa sinestesia política originária tenha se tornado no decurso do tempo o consenso ao qual confiam hoje seus destinos as democracias na última, extrema e extremada fase da sua evolução é, como se diz, uma outra história sobre a qual deixo vocês refletirem.”

In O que é o Contemporâneo? E outros ensaios, Argos – editora da Unochapecó, Giorgio Agamben, Chapecó, 2010.

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