terça-feira, 17 de abril de 2012

SEMANA ‘QUASE-SER-TÃO’: Mia Couto


“Quem parte treme, quem regressa teme. Tem-se medo de se ter sido vencido pelo Tempo, medo de que ausência tenha devorado as lembranças. A saudade é um morcego cego que falhou o fruto e mordeu a noite.
À medida que se aproximava da sua vila, Mwadia ansiava recuperar o sentido de pertença a um lugar. Ela estava, a um tempo, receosa e ansiosa. As vozes e os olhares lhe iriam certamente devolver a perdida familiaridade. Nem adivinhava quanto os rostos de Vila Longa estavam vazios e inexpressivos, como se ela, mesmo regressando, se mantivesse ausente.
Quando entrou em Vila longe era noite madura, nessa hora tão tardia que até o mocho pestaneja para nãoaodrmecer.
A vila era de bom tamanho, suficiente para merecer igreja e praça. Mwadia podia caminhar de olhos fechados, guaiaca pelo sentimento de estar vagueando por dentro do seu próprio corpo. Constrangida, foi atravessando as ruelas. O ruído dos cascos o do burro era a sua única defesa contra o medo. Perfilou-se perante a velha casa e um arrepio a fez estancar. A casa da infância é como um rosto de mãe: contemplamo-lo como se já existisse antes de haver o tempo.”

In O outro pé da sereia, Mia Couto, companhia das Letras, SP, 2006.

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