quarta-feira, 18 de abril de 2012

SEMANA ‘QUASE-SER-TÃO’: Mia Couto


“Que também ele, Bartolomeu Sozinho, fora dado a poesias. E pela centésima vez reabre a gaveta para reler num bloco de notas algo que escrevera sobre tempos e pensamentos. Avança para o centro do aposento e faz de conta que vai lendo um invisível manuscrito: “Aos 10 anos todos nos dizem que  somos espertos, mas que nos faltam ideias próprias. Aos 20 anos dizem que somos muito espertos, mas que não venhamos com ideias. Aos 30 anos já pensamos  que ninguém mais tem ideias. Aos 40 achamos que as ideias dos outros são todas nossas. Aos 50 pensamos com suficiente sabedoria para já não ter ideias. Aos 60 ainda temos ideias mas esquecemos do que estávamos a pensar. Aos 70 só pensar já nos faz dormir. Aos 80 só pensamos quando dormimos” . A mão tomba-lhe num inesperado abatimento e Bartolomeu sacode a cabeça como que surpreso pela sua própria criação.

- Munda diz que isto não é da minha autoria. Mas eu escrevi isto a bordo do Infante D. Henrique. Eu lá também sofri de poesia.”

 In Venenos de Deus, remédios do Diabo, Mia Couto, Companhia das Letras, SP, 2008.

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