sexta-feira, 20 de abril de 2012

SEMANA ‘QUASE-SER-TÃO’: Mia Couto



“Nunca quis. Nem muito, nem parte. Nunca fui eu, nem dona, nem senhora. Sempre fiquei entre o meio e a metade. nunca passei de meios caminhos, meios desejos, meia saudade. daí o meu nome: Maria Metade.
Fosse eu invocada por voz de macho. Fosse eu retirada da ausência por desejo de alguém. Me tivesse calhado, ao menos, um homem completo, pessoa acabada. Mas não, me coube a metade de um homem. Se diz, de língua girada: o meu cara-metade. Pois aquele, nem meu, nem cara. E se metade fosse, não seria só a cara, mas todo ele, um semimacho. Para ambos sermos casal, necessitaríamos, enfim, de sermos quatro.”

In O fio das missangas, Mia Couto, Companhia das Letras, SP, 2009.


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