domingo, 13 de maio de 2012

EDUARDO GALEANO: ARTE, LITERATURA, POLÍTICA... E VIDA.

“Eu não acredito, e nunca acreditei, nas fronteiras que separam os gêneros literários, porque no fundo não acredito em fronteira nenhuma, eu não gosto do mundo globalizado porque sou internacionalista, porque não acredito nas fronteiras do espaço e do tempo. No mundo de hoje, as fronteiras desaparecem em nome da liberdade do dinheiro, mas eu acho que deveriam desaparecer em nome de outras coisas mais belas e mais importantes: como, por exemplo, a vontade de beleza e a vontade justiça, que fazem com que  cada um de nós possa ser compatriota e contemporâneo de pessoas que nasceram em outro lugar e outro tempo. O mesmo acontece com as fronteira dos gêneros, eu as detesto e adoro violá-las, por isso mesmo não posso aceitar dentro de mim a ideia de que há coisas que pertencem ao gênero da ficção e outras que poderiam ser um ensaio. Para mim, tudo é parte do mesmo,a realidade é uma senhora muito louca e a única forma de poder escutar suas vozes múltiplas é não ser surdo a nenhuma delas. Por isso, nas coisas que escrevo aparecem misturados os mitos, as fábulas, as lendas, as crônicas da realidade,a celebração das luzes e a denúncia das sombras”.
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“É o texto que me diz. Eu acho que os livros de verdade, os que valem a pena, são os que te escrevem você pode observar que a palavra texto provém do latim textum, que significa tecido. O texto é o resultado da arte de tecer com as cores da vida. Somos, de alguma maneira, tecelões que praticam o ofício de escrever e,diria mais, somos tecelões que praticam o ofício de viver porque viver também é tecer. Escrever resulta das tensões e contradições entre o desejo e o mundo,entre o que cada um quer e o que vai podendo dizer. O texto é algo vivo, um tecido vivo, e é sempre surpreendente, contraditório e perigoso.”
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“A arte tem de ser primeiro arte. Uma arte de criação que permita multiplicar quem está lendo. A prova de fogo de um texto é ver o que se diz cursivamente alguém e conseguir também que algumas perguntas relacionadas à política sejam formuladas. Você se dirige ao leitor como pessoa e essa pessoa inclui uma consciência, pois sabemos que a realidade também é política, embora não gostemos disso. Eu acho que os baralhos da vida vêm misturados e qualquer tentativa para fazer jogos de naipes são traições à vida. Como disse, não acredito em nenhuma fronteira. Sobre a outra questão, os movimentos estético que  tenho visto mais de perto, nesta longa história da arte, são, precisamente os que têm tentado reunir o que estava divorciado,sintetizar o que parecia condenar-nos ao irremediável compartimento da alma. Como resultado de uma educação católica, que ensina a separar a alma do corpo, o que é nosso primeiro grande divórcio, tenho passado a vida inteira tratando de juntar a bela e a fera.”

In Cult 41, Revista Brasileira de Literatura, dezembro/2000.


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