sexta-feira, 11 de maio de 2012

Mãe em Adélia Prado


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A Ivonete está quase gritando: ‘Ai, Senhor, liberta o coitadinho’. Entrou pela porta da cozinha e se perdeu atrás da geladeira, aprendendo a voar, o filhote de passarinho. A mãe, louca, piando em volta e trazendo comida, sem sucesso, uma zoeira os dois. Abel arrastou a geladeira e poso filhote na grama, a mãe veio doida atrase e os dois sumiram. Graças a Deus, falou a Ivonete, como é que tem gente que não olha os filhos, se até bicho-mãe cuida da cria”.

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Quando ajudei minha mãe a morrer, era a mocinha que escondia o coração aos arrancos, por causa dos engenheiros bonitos que na ferrovia em obras pediam água em nossa casa. Reza, filha, e toma conta da Joana. De nós todas, penso que a mais órfã é Graça, a mais maternal, a mais sábia, a que tem de nossa mãe apenas a imprecisão de um vulto. Mãe, quantas vezes te vi alegre sem ser por gosto da tristeza? Quando a senhora pedia meus lápis de cor, pegava-os de um jeito que eu queria esconder-me, fugir da sensação esquisita de prazer pagão desagradando a Deus. Só goze a festa em suas providências. Começou o baile? Já chega, dançar também já é demais. Eu, Graça e Joana fomos afetadas e, ainda que loucas pra namorar e casar, demoramos anos a nos tornar mulheres comestíveis.

In Quero minha mãe, Adélia Prado, Record, SP, 2005.

 (Olga e Paul, de Pablo Picasso)

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