quinta-feira, 10 de maio de 2012

MÃE em Fernando Pessoa



O MENINO DA SUA MÃE

No plaino abandonado,
Que a morna brisa aquece,
De balas trespassado
- Duas de lado a lado –
Jaz morto, e arrefece.

Raia-lhe a farda o sangue,
De braços estendidos,
Alvo, louro, exangue,
Fita com olhar langue
E cego os céus perdidos.

Tão jovem! Que jovem era!
Agora que idade tem?
Filho único, a mãe lhe dera
Um nome, e o mantivera –
“O menino da sua mãe”...
Cai-lhe d algibeira
 A cigarreira breve.
Dera-lhe a mãe. Está inteira
E boa a cigarreira,
Ele é que já não serve.

Da outra algibeira, alada
Ponta a roçar o solo,
A brancura embainhada
Do lenço... Deu-lho a criada
Velha, que o trouxe ao colo.
 Lá longe, me casa, há aprece:
Que volte cedo e bem!
(Malhas que o Império tece!)
Jaz morto, e apodrece,
O menino da sua mãe...

In 100 poemas essenciais da Língua Portuguesa, Organização Carlos Figueiredo, Editora Leitura, Bh, 2004.

  

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