terça-feira, 8 de maio de 2012

MAMÃE CLARICE LISPECTOR


Rio, 26 de janeiro de 1969

Meu adorado filho,
Ontem, quando você embarcou, custei depois a pegar no sono. Não era por preocupação, mas acredite que qualquer mãe digna desse nome me entenderá. Há pouco tempo, Gafanhoto, você subia pelas minhas pernas para ficar no meu colo. É com orgulho ver você alto, fisicamente feito, e independente sobretudo.
Conte-me tudo, por favor. (esta carta só poderá seguir na segunda-feira, amanhã). Como é sua família de empréstimo? Quantas pessoas estão na casa? Quantos cinemas tem a cidadezinha?
Hoje, dia seguinte de sua partida, domingo, ocupei-me o tempo todo para disfarçar a saudade. Acabei de copiar o resto do livro, e certamente amanhã mesmo telefono para a Editora Sabiá pedindo que mandem buscar. Se o livro é bom? Eu acho ele detestável e malfeito, mas as pessoas que o leram acham-no bom.
Amanhã vou chamar o homem de pintar geladeiras. E creio mesmo que o tom será bege queimado, combinando o teto. Aliás da primeira vez que  vier o faxineiro, voou mandar lavar o teto da cozinha.
Vá escolhendo as cores para o seu quarto, pois essas coisas demoram muito: tenho que escolher um pintor de muita confiança para que só teto seja pintado de azul-pavão, e não escorra nada pelas paredes. Acho bonita a ideia de pintar o rodapé, é original a ideia. Mas alaranjado não porque é difícil de encontrar coberta de cama da mesma cor. A menos que o rodapé seja alaranjado e a coberta de cama da cor de azul-rei.
Silea ficou com tanta saudade de você que não quis assistir televisão, e foi para a cama à oito horas.
Hoje felizmente Pedro foi ao cinema com tia Elisa. Imagine você que ele tinha inventado tantas coisas más a respeito de cinema que não queria mais ir. Mas, se Deus quiser, de agora em diante ele perderá o medo.
Faz muito frio aí? O sobretudo forrado tem esquentado bastante?
Meu Gafanhoto, Deus te abençoe e te proteja. Aceite, junto com meu beijo, a minha benção de mãe.
Mamãe.
Silea te manda um beijo


Rio, 31 de maio de 1969 (vai para o correio segunda-feira, 2 de junho. Hoje é sábado)

Meu querido Pernilongo,
Como vai o meu amor de filho? Estou contente com a ideia de um fim de semana em Chicago. E acho muito boa a sua ideia de um ‘empreguinho’, como o de cortar grama. Eu também já tive vários empreguinhos, e ganhava meu dinheirinho. Além do mais não dá preguiça de cortar a grama dos outros, só dá preguiça quando é a grama de nossa própria casa. E, embora eu já saiba por que você escreveu, que não está precisando de dinheiro, uns dólares a mais não prejudicarão em nada.
Meu querido, quanto ao seu quarto, você infelizmente terá que esperar por dias melhores, isto é, mais fartos em matéria de dinheiro. Pintar as paredes de seu quarto apenas, eu não faria, porque daqui a um ano pretendo pintar a casa toda. E, quanto ao teto azul-rei, eis a minha opinião: seu quarto não é muito bem iluminado, mas a cores claras iluminam um pouco o ambiente. Ora, se eu cobrir com uma camada de tinta azul escuro o teto, escurecerei o quarto inteiro. Garanto-lhe, Paulo, que não vale a pena. É melhor, pelo menos pelo momento, deixar o quarto como está.
Estive na Bahia para entrevistar três pessoas (Jorge Amado, o tapeceiro Genaro – não ganhei nenhum tapete... e o escultor Mário Cravo) e adorei Salvador. Foram três dias e meio de sonho e agora só penso em voltar para lá e quem sabe, passar um mês trabalhando lá mesmo. Eu fui a convite do governador da Bahia que pôs à minha disposição um carro e um chofer, de modo que pude ver mil vezes mais do que se passasse tempo andando e procurando ruas. Nunca comi tanto azeite dendê na minha vida.
Receba um beijo (da pessoa que mais quer você no mundo)
Mamãe.
Não quero gato aqui em casa, a menos que já tenha sido treinado em pipis e em arranhar os estofos dos móveis.


 In Correspondências, Clarice Lispector, Rocco, RJ, 2002.

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