segunda-feira, 7 de maio de 2012

Mulheres Mães:


(...)
CLITEMNESTRA:
“Ouve-me, então, pois não pretendo ser omissa,
Nem vou valer-me de alusões ou circunlóquios.
Principiando – escuta logo este detalhe -,
Casamo-nos violentando os meus desejos.
Mataste um dia meu primeiro esposo, Tântalo;
Arrancaste meu filho de minhas entranhas
Esmagá-lo ainda vivo contra o solo.
Depois, meus dois irmãos, ambos filhos de Zeus,
Vieram contra ti em seus corcéis brilhantes;
Meu, o idoso Tíndaro, a quem recorreste
Como um aflito suplicante que implorava
O seu auxílio, salvou-te do degredo
Prontificando-se a ser o teu protetor
E danto-te o direito de casar comigo.
Contive meu ressentimento desde então;
Mostrei-me para ti e para tua casa
Uma mulher considerada incensurável
- és testemunho disto. A própria Afrodite
Nada pôde fazer para me desviar
De uma conduta obediente à castidade.
Graças a meus cuidados prosperaste sempre,
De tal maneira que em teu lar tudo era alegre
E fora dele tua fortuna crescia.
Uma mulher assim é um prêmio mito raro
Par ao marido, enquanto as companheiras más
Abundam para desespero dos esposos.
Enfim, depois de dar à luz três filhas tuas,
Pari um filho, Orestes, que estás vendo aqui;
Mas hoje queres, pai cruel, arrebatar-me
Impiedosamente uma de nossas filhas!
E se te perguntares por que vais matá-la,
Que poderás dizer? Fala! Responde logo!
(silêncio)
Queres que eu responda por ti? Então escuta:
Para que Helena volte a ser de Menelau!
É realmente nobre dar seus próprios filhos
Como resgate de uma esposa sem pudor!
Assim recuperamos o mais detestável
Ao preço do que temos de mais valioso!
Se fores para a guerra deixando-me só
Durante a longa expedição, que sentimentos
 queres que eu tenha, abandonada em nosso lar,
Vendo sempre vazios todos os lugares
Onde acomodava esta menina amada,
Vazio para sempre seu quarto de virgem?
Quando eu estiver só, entregue às minhas lagrimas,
Repetirei vezes sem conta a minha queixa:
‘O pai que te deu vida te matou, filhinha!
Sim! Ele te matou! Não foi outra pessoa
Nem outra mão!’ terás coragem de voltar
À tua casa um dia, depois de ddeixá-la
Cheia de ódio? Não faltarão pretextos
para que eu e minha outras pobres filhas
Que vais deixar abandonadas em teu lar
Te demos quando regressares lá de Tróia
As merecidas boas vindas ao bom pai.
Ah! Pelos deuses, Agamemnon! Não me force
A ter por ti um rancor nunca imaginado!
Não sejas tão perverso quanto queres ser!
(silêncio)
O que tiver de vir virá. Imolarás
A tua própria filha. Que preces farás?
Que graças pedirás, então, para ti mesmo
Na hora de tirar-lhe a vida? Com certeza
Uma viagem infeliz de volta à Grécia,
Pois uma infâmia marcará tua partida.
Posso almejar que sejas venturoso em tudo?
Quem desejar aos assassinos boa sorte
Por certo suporá que os deuses são insanos.
Pensas em abraçar os filhos quando as naus
Te trouxerem de volta? Não! De forma alguma!
Dize: qual deles poderá sequer olhar-te?
Todos recearão que pretendas matá-los
Depois de lhes pedir para se aproximarem!
Tiveste isto em mente, ou te basta ostentar;
Pavoneando-te, as insígnias do poder
À frente de um exército? Mas deverias
Dizer a teus subordinados as palavras:
“Quereis partir, soldados, para pelejar
Contra os guerreiros frígios? Basta sortear
 Aquele cujo filho deve perecer”.
Seria esta a solução equitativa,
Em vez de oferecer, como a melhor das vítimas,
A tua própria filha aos combatentes gregos!
Também se poderia considerar justo
Que Menelau sacrificasse sua filha,
A virgem Hermione, para resgatar
A sua mãe, já que o interessado é ele.
Serei eu, a esposa mais fiel, então,
Que perderei a minha filha, enquanto Helena,
A única culpada, verá novamente
A sua filha no palácio, em Esparta,
Após recuperar toda a ventura antiga?
Agora fala! É tua vez! Dize-me, rei,
Se não tenho razão; mas, se meus argumentos
Te parecerem justos,deves recuar;
Não sacrifiques Ifigênia, nossa filha,
Mostrando assim que ainda sabes ser sensato!
(...)

In Ifigênia em Áulis, Eurípides, Jorge Zahar Editor, RJ, 2002.


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