sábado, 30 de junho de 2012

ÍTALO CALVINO PARA WOLF 2



“1. Na linguagem literária francesa atual, o termo fantástico é utilizado sobretudo para as histórias de espanto, que implicam uma relação com o leitor à moda oitocentista: o leitor (se quiser participar do jogo, pelo menos com uma parte de si) tem de acreditar naquilo que lê, aceitar ser apanhado por uma emoção quase fisiológica (costumeiramente, de terror, ou de angústia) e procurar uma explicação, como para uma experiência de vida. Em italiano (como originalmente também em francês, creio) os termos fantasia e fantástico não implicam absolutamente esse mergulho do leitor na corrente emocional do texto; implicam, ao contrário, uma tomada de distância, uma levitação, a aceitação de uma lógica outra que leva para objetos outros e nexos outros, diversos daqueles da experiência diária (ou das convenções literárias dominantes). Desse modo, podemos falar de fantástico no século XX ou então de fantástico no Renascimento. Para os leitores de Ariosto, nunca se impôs o problema de acreditar ou de explicar; para eles, como hoje para os leitores de O nariz de Gogol, de Alice no País das Maravilhas, da Metamorfose de Kafka, o prazer do fantástico está no desenvolvimento de uma lógica cujas regras, cujos pontos de partida ou cujas soluções reservam surpresas. O estudo de Todorov é muito específico a uma acepção importante do fantástico, e muito rico de sugestões quanto a outras acepções, com vistas a uma possível classificação geral. Se quisermos desenhar um atlas exaustivo da literatura da fantasia, será necessário começar por uma gramática daquilo que Todorov denomina maravilhoso, no âmbito das primeiras operações combinatórias de signos nos mitos primitivos e nas fábulas, e também no das necessidades simbólicas do inconsciente (antes de qualquer  tipo de alegoria consciente), assim como no dos jogos intelectuais de toda época e de toda civilização.
2. O fantástico do século XIX, produto refinado do espírito romântico, logo passou para a literatura popular. (Poe escrevia para jornais.) no século XX, é um uso intelectual (e já não emocional) do fantástico que se impõe: como jogo, ironia, piscadelas, e também como meditação sobre os pesadelos ou os desejos ocultos do homem contemporâneo.
3. Deixo aos críticos a tarefa de situar meus romances e contos dentro (ou fora) de uma classificação do fantástico, para mim, no centro da narração não está a explicação de um fato extraordinário, e sim a ordem que esse fato extraordinário desenvolve em si e ao redor de si, o desenho, a simetria, a rede de imagens que se depositam em torno dele, como na formação de um cristal.
4. Procurarei entre minhas leituras recentes algum nome pouco conhecido que represente diversas possibilidades do fantástico. Em primeiro lugar, um romance do século XIX que pode ser definido como ‘fanta-geometria’: Flatland, do inglês Abbott. Na outra ponta, um romance polonês da época entre as duas guerras e que parte da memória familiar para uma transfiguração visionária de uma riqueza inesgotável: aquele de Bruno Schulz. Depois, os contos de Felisberto Hernández, uruguaio, nos quais o narrador – costumeiramente um pianista - é convidado a mansões solitárias onde ricos maníacos organizam complicadas encenações com trocas entre mulheres e bonecas. Há nele alguns elementos comuns com Hoffmann, mas na realidade não se parece com ninguém.”


In Assunto Encerrado – Discursos sobre literatura e sociedade, Ítalo Calvino. Companhia das Letras,  SP, 2009.
 
p.s: atenção Grupo de Estudos. Este fragmento está na pauta do próximo encontro.


sexta-feira, 29 de junho de 2012

ÍTALO CALVINO PARA WOLF 1


13. É clássico aquilo que tende a relegar as atualidades à posição de barulho de fundo, mas ao mesmo tempo não pode prescindir desse barulho de fundo.
14. É clássico aquilo que persiste como rumor mesmo onde predomina a atualidade mais incompatível.
Resta o fato de que ler os clássicos parece estar em contradição com nosso ritmo de vida, que não conhece os tempos longos, o respiro do otium humanista; e também em contradição com o ecletismo da nossa cultura, que jamais saberia redigir um catálogo do classicismo que nos interessa.
Eram as condições que se realizavam plenamente para Leopardi, dada a sua vida no solar paterno, o culto da antiguidade grega e latina e a formidável biblioteca doada pelo pai Monaldo, incluindo a literatura italiana completa, mais a francesa, com exclusão dos romances e em geral das novidades editoriais, relegada no máximo a um papel secundário, para conforto da irmã (‘o teu Stendhal’, escrevia a Paolina).  Mesmo suas enormes curiosidades científicas e históricas, Giacomo as satisfazia com textos que não eram nunca demasiado up-to-date: os costumes dos pássaros de Buffon, as múmias de Federico Ruysch em Fontenelle, a viagem de Colombo em Robertson.
Hoje, uma educação clássica como a do jovem Leopardi é impensável, e sobretudo a biblioteca do conde Monaldo explodiu. Os velhos títulos foram dizimados, mas os novos se multiplicaram, proliferando em todas as literaturas e culturas modernas. Só nos resta inventar para cada um de nós uma biblioteca ideal de nossos clássicos; e diria que ela deveria incluir uma metade de livros que já lemos e que contaram para nós, e outra de livros que pretendemos ler e pressupomos possam vir a contar. Separando uma seção a ser preenchida pelas surpresas, as descobertas ocasionais.
Verifico que Leopardi é o único nome da literatura italiana que citei.  Efeito da explosão da biblioteca. Agora deveria reescrever todo o artigo, deixando bem claro que os clássicos servem para entender quem somos e aonde chegamos e por isso os italianos são indispensáveis justamente para serem confrontados com os estrangeiros,ve os estrangeiros são indispensáveis exatamente para serem confrontados com os italianos.
Depois deveria reescrevê-lo ainda uma vez para que não se pense que os clássicos devem ser lidos porque ‘servem’ para qualquer coisa. A única razão que se pode apresentar é que ler os clássicos é melhor do que não ler os clássicos.
E se alguém objetar que não vale a pena tanto esforço, citarei Cioran (não  um clássico, pelo menos por enquanto, mas um pensador italiano contemporâneo que só agora começa a ser traduzido na Itália): “Enquanto era preparada a cicuta, Sócrates estava aprendendo uma ária com a flauta. ‘Para que lhe servirá?, perguntaram-lhe. Para aprender esta ária antes de morrer’.”

In Por que ler os clássicos, Ítalo Calvino, Companhia de Bolso, SP, 2007


quinta-feira, 28 de junho de 2012

Antônio Nóbrega e Guimarães Rosa para Estevão IX: a grande arte do Brasil

O romance de Riobaldo e Diadorim

( Antonio Nóbrega e Wilson Freire)

Quando eu vi aqueles olhos,
Verdes como nenhum pasto,
Cortantes palhas de cana,
De lembrá-los não me gasto.
Desejei não fossem embora,
E deles nunca me afasto.

Vivemos a desventura
De um mal de amor oculto,
Que cresceu dentro de nós
Como sombra, feito um vulto.
Que não conheceu afago,
Só guerra, fogo e insulto.

Na noite-grande-fatal,
O meu amor encantou-se.
Desnudo corpo inteiro
Desencantado mostrou-se.
E o que era um segredo,
Sem mais nada revelou-se.

Sob as roupas de jagunço,
Corpo de mulher eu via.
A deus, já dada, sem vida,
O vau da minha alegria.
Diadorim, Diadorim…
Minha incontida sangria.
 

Wolf para Malu:

 

P.s: é importante que você descubra. Ou melhor, é importante que você sustente aquilo que já sabe. Importa-me que você sofra. Importa-me mais que a vida seja descoberta. 


quarta-feira, 27 de junho de 2012

terça-feira, 26 de junho de 2012

Estêvão para Lóri:


No início do século XX, o tango ainda era dançado somente entre homens, como o é o Sirtaki, dança tradicional grega. O tango é uma verdadeira obra de arte. A leveza e a mudança de mãos, o movimento livre das pernas,  a elegância da dupla... e a loucura da alma.  


P.s: São as memórias boas que nos constituem. Não sintas saudades, sinta-se apenas.


Wolf para Pedro:

p.s: estávamos cansados, lembra? Mas continuamos, é certo. Soube que você estava lá nesse dia. Sempre você pelo mundo. Tive inveja. 

“NONADA”, Guimarães Rosa para Estêvão VII


“Diz-se que era o dia do valente não ser; ou que o poder, aos tombos dos dados, emana do inesperado; o que, vezes, a gente em si faz feitiços fortes, sem nem saber, por dentro da mente”.

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Lóri para Wolf:


Amanhecia, lembra? Era outono e a serra estava límpida emoldurando a cidade. Tomamos café preto e decidimos seguir caminho. Apesar de e por isso mesmo.

“NONADA”, Guimarães Rosa para Estêvão VI

 “Com o céu todo, vista longe e ar claro – da estrada suspensa no planalto – grandes horas do dia e horizonte: campo e terras, várzea, vale, árvores, lajeados, verdes e cores, rotas sinuosas e manchas extensas de mato – o sem-fim da paisagem dentro do globo de um olho gigante, azul-espreitante, que esmiúça: posto no dorso da mão da serrania, um brinquedo feito, pequeno, pequeno: engenhoca minúscula de carro.”

domingo, 24 de junho de 2012

“NONADA”, Guimarães Rosa para Estêvão V

 “Cheguei para a frente, falando sempre, para a beira da beirada. Ainda olhei, antes. Tremeluzi. Dei a cambalhota. De propósito me despenquei. E caí. E me parece, o mundo se acabou.”

sábado, 23 de junho de 2012

“NONADA”, Guimarães Rosa para Estêvão IV


“Eh, ele sabia ser homem terrível. Suspa! O senhor viu onça: boca de lado e lado, raivável, pelos filhos? Viu rusgo de touro no alto do campo, brabejando; cobra jararacuçu emendando sete botes estalados; bando doido de queixadas se passantes, dando febre no mato. E o senhor não viu o Reinaldo guerrear!... Essas coisas se acreditam. O demônio na rua no meio do redemunho...”


sexta-feira, 22 de junho de 2012

“NONADA”, Guimarães Rosa para Estêvão III

 “Muita religião, seu moço! Eu cá, não perco ocasião de religião. Aproveito de todas. Bebo água de todo rio... Uma só, para mim, é pouca, talvez não me chegue. Rezo cristão, católico, embrenho a certo; e aceito as preces de compadre meu Quelemém, doutrina dele, de Cardéque. Mas, quando posso, vou no Mindubim, onde um Matias é crente, metodista: a gente se acusa de pecador, lê alto a Bíblia, e ora, cantando hinos belos deles. Tudo me quieta, me suspende. Qualquer sombrinha me refresca. Mas é só muito provisório. Eu queria rezar – o tempo todo. Muita gente não me aprova, acham que lei de Deus é privilégios, invariável. E eu! Bofe! Detesto!”

quinta-feira, 21 de junho de 2012

“NONADA”, Guimarães Rosa para Estêvão II

 “De noite, se é de ser, o céu embola um brilho. Cabeça da gente quase esbarra nelas. Bonito em muito comparecer, como o céu de estrelas, por meados de fevereiro! Mas em deslúa, no escuro feito é um escurão que peia e pega. É noite de muito volume.”

quarta-feira, 20 de junho de 2012

CHEGOU O INVERNO!

Início do Inverno

LIQUIDAÇÃO DE INVERNO

Carlos Drummond de Andrade
 Olha o ajuntamento na calçada,
o bolo humano denso, silencioso,
a paralisia coletiva...
Que foi que aconteceu?
Crime, suicídio, bomba, um novo deus?
Calma, não te assustes.
Precisas acostumar-te com a cidade
e seus ritos pendulares.
Não viste nos jornais aquele grito
e nas vitrinas as vermelhas tiras
anunciando em voz e cifra
Liquidação
Liquidação?

Agora vejo que esse grupo
indecifrado logo se esclarece.
Homem nenhum, ou quase. Só mulheres,
pois só mulheres sabem quando é hora
de (formigas) comprar para guardar.

A porta está fechada? Mas no aquário
de lãs tricôs camurças couros
quatro consumidoras são servidas,
outras quatro, cá fora, esperam vez.
Esperar resignado
de quem sabe que tudo anda difícil
e até os ossos do festim,
têm que ser disputados como pérolas.

Outras quatro mais quatro vão entrando
no longo dia lento, frio.
O casaco de acrílico de 1000
961 por 900
e 84, uma pechincha. A calça jeans
para menina, a camisola, a jardineira,
meu Deus, o casacão, o plush,
tudo ficou barato de repente
ou dá a ilusão de ser barato,
convida, chama, intima:
Me compra rapidinho, enquanto o inverno
faz que vai mas não vai, e está gelado
o corpo, o quarto, o amor e tudo mais.

Liquidação, palavra mágica,
seu fundo de negrume e seu clarão.
Liquida-se um império,
uma política, um chefe, uma doutrina,
e nas vazias prateleiras outras formas
se acumulam, aguardam
o tempo de murchar, o desapreço
do preço baixo, a remarcada
voga da estação, como se tudo
durasse um quarto de ano: juramentos,
códigos, angústias, braceletes,
sandálias, planos...
E dura, e dura mais?

...e seu clarão.
Liquidadas as modas sazonais,
restaura-se a esperança na vitrina.
O jogo do futuro nos cativa.
A primavera, juro, vai trazer
o inolvidável prêmio de existir.
Seremos todos jovens. Ninguém mais
se lançará da ponte, ou traficâncias
fará contra a sorte dos humildes.
Todos serão humildes, na alegria
de um tempo verdejante...

Calma, não sonhes tanto.
Liquidação é apenas
porta deixando passar
compradores de saldos.
Se queres o brinquedo
de jogar com palavras, preferível
esta, que te dou entre dois goles
de papo vespertino: liquidâmbar.
Gostaste? Seu olor resinoso
o nariz te penetra e reconforta
a poluída garganta? Esquece, esquece
as liquidações que não liquidam
a carga de injustiça e desamor
pairante sobre a vida,
seja inverno ou verão, outono ou primavera.