quinta-feira, 14 de junho de 2012

Dom Juan, Werther e o amor, segundo Stendhal


(...)
"La Rochefoucauld, que, no entanto, entendia de amor próprio e na vida real não era nada menos que um pateta homem de letras, diz: “O prazer do amor é amar, e somos mais felizes pela paixão que temos do que pela que inspiramos”.
A felicidade de Don Juan não passa de vaidade baseada, é verdade, em circunstâncias produzidas por muito espírito e muita atividade. Mas ele deve sentir que o menor general que ganha uma batalha, o menor prefeito que governa um departamento têm um prazer mais notável do que o seu, enquanto que a felicidade do duque de Nemours quando a Sra. De Clèves lhe diz que ela o ama está, creio, acima da felicidade de Napoleão em Marengo.
O amor à maneira de Don Juan é um sentimento do mesmo gênero do gosto pela caça. É uma necessidade de atividade que deve ser despertado por objetos diversos e que põe incessantemente em dúvida o nosso talento.


O amor à maneira de Werther é como o sentimento de um colegial que faz uma tragédia, e mil vezes melhor; é um novo objetivo na vida, ao qual tudo se relaciona e que muda a fisionomia de tudo. O amor-paixão põe diante de um homem toda a natureza com seus aspectos sublimes, como uma novidade inventada ontem. Ele se espanta por não nunca ter visto o espetáculo singular que se revela à sua alma. Tudo é novo, tudo está vivo, tudo respira o mais apaixonado interesse. Um amante vê a mulher que ele ama na linha do horizonte de todas as paisagens que encontra, e, ao percorrer cem léguas para ir entrevê-la por um instante, cada árvore, cada rochedo lhe fala dela de uma maneira diferente e lhe ensina algo de novo a respeito dela. Em lugar do estrépito desse espetáculo mágico, Don Juan precisa que os objetos exteriores, que para ele só têm valor segundo seu grau de utilidade, tornem-se picantes graças a alguma nova intriga.


O amor à maneira de Werther tem prazeres singulares; depois de um ou dois anos, quando o amante, por assim dizer, forma uma só alma com quem ama, e isto, coisa estranha, mesmo independentemente dos êxitos no amor, mesmo com os rigores de sua amante, faça ou veja ele o que for, ele se pergunta: “Que diria ela se estivesse comigo? Que diria eu desta vista de Casa Lecchio?” Ele lhe fala, escuta suas respostas, ri das brincadeiras que ela lhe faz. A cem léguas dela e sob o peso de sua cólera, ele se surpreende fazendo esta reflexão: “Léonore estava muito alegre esta tarde.” Ele acorda: “Mas, meu Deus!”, diz a si mesmo entre suspiros, “existem loucos em Bedlam que são menos loucos do que eu!”.
(...) Os Don Juan devem ter muita dificuldade para convir sobre a verdade do estado de alma de que acabo de falar.  Além de não poderem ver nem sentir, ele choca demais a sua vaidade. O erro de sua vida é acreditarem conquistar em quinze dias o que um amante transido dificilmente obtém em seis meses. Baseiam-se em experiências feitas às custas desses pobres diabos que não têm nem a alma necessária para agradar, revelando seus movimentos ingênuos a uma mulher terna, nem o espírito necessário para o papel de Don Juan. Não querem enxergar que o que obtêm, mesmo que concedido pela mesma mulher, não é a mesma coisa.” (...)

In DO AMOR, Stendhal, Martins Fontes, SP, 1993.

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