domingo, 10 de junho de 2012

O AMOR EM PLATÃO: O BANQUETE



(...)
“Assim, de muitos lados se reconhece que Amor é entre os deuses o mais antigo. E sendo o mais antigo é para nós a causa dos maiores bens. Não sei eu, com efeito, dizer que haja maior bem para quem entra na mocidade do que um bom amante, e para um amante, do que o seu bem-amado. Aquilo que, com efeito, deve dirigir toda a vida dos homens, dos que estão prontos a vivê-la nobremente, eis o que nem a estirpe pode incutir tão bem, nem as honras, nem a riqueza, nem nada mais, como amor. A que é então que me refiro? À vergonha do que é feio e ao apreço do que é belo. Não é com efeito possível, sem isso, nem cidade nem indivíduo produzir grandes e belas obras. Afirmo eu então que todo homem que ama, se fosse descoberto a fazer um ato vergonhoso, ou a sofrê-lo de outrem sem se defender por covardia, visto pelo pai não se envergonharia tanto, nem pelos amigos nem por ninguém mais, como se fosse visto pelo bem amado. E isso mesmo é o que também no amado nós notamos, que é sobretudo diante dos amantes que ele se envergonha, quando surpreendido em algum ato vergonhoso. Se por conseguinte algum meio ocorresse de se fazer uma cidade ou uma expedição de amantes e de amados, não haveria melhor maneira de a constituírem senão afastando-se eles de tudo o que é feio e porfiando entre si no apreço à honra; e quando lutassem um lado do outro, tais soldados venceriam, por poucos que fossem, por assim dizer todos os homens. Pois um homem que está amando , se deixou seu posto ou largou suas armas, aceitaria menos sem dúvida a ideia de ter sido visto pelo amado do que por todos os outros,e a isso preferiria muitas vezes morrer. E quanto a abandonar o amado  ou não socorrê-lo em perigo, ninguém há tão ruim que o próprio Amor não torne inspirado para virtude, a ponto de ficar ele semelhante ao mais generoso de natureza; e sem mais rodeios, o que disse Homero  ‘do ardor que a alguns heróis inspira o deus”, eis o que  o Amor dá aos amantes, como um dom emanado de si mesmo. (...)
Assim, pois, eu afirmo que o Amor é dos deuses o mais antigo, o mais honrado e o mais poderoso para a aquisição da virtude e da felicidade entre os homens, tanto em sua vida como após sua morte.”

In PLATÃO, Os Pensadores, Victor Civita Editor, RJ, 1983.


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