terça-feira, 31 de julho de 2012

França, lavanda, poesia...

Lisboa, Fernando Pessoa... e delicadeza. Obrigada, Zélia.


Só o que sonhamos é o que verdadeiramente somos, porque o mais, por estar realizado, pertence ao mundo e a toda a gente. (Fernando Pessoa)


AMOR PELA LITERATURA 5

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  (fotos de Joel Robison)
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P.S: sim, sim, Beto, amor pela fotografia também.

DICA PARA O GRUPO DE ESTUDOS: Bachelard e Freud 3


“Não devemos supor que os produtos dessa atividade imaginativa - as diversas fantasias, castelos no ar e devaneios - sejam estereotipados ou inalteráveis. Ao contrário, adaptam-se às impressões mutáveis que o sujeito tem da vida, alterando-se a cada mudança de sua situação e recebendo de cada nova impressão ativa uma espécie de ‘carimbo de data de fabricação. ’ A relação entre a fantasia e o tempo é, em geral, muito importante. É como se ela flutuasse entre três tempos - os três momentos abrangidos pela nossa ideação. O trabalho mental vincula-se a uma impressão atual, a alguma ocasião motivadora no presente que foi capaz de despertar um dos desejos principais do sujeito. Dali, retrocede à lembrança de uma experiência anterior (geralmente da infância) na qual esse desejo foi realizado, criando uma situação referente ao futuro que representa a realização do desejo. O que se cria então é um devaneio ou fantasia, que encerra traços de sua origem a partir da ocasião que o provocou e a partir da lembrança. Dessa forma o passado, o presente e o futuro são entrelaçados pelo fio do desejo que os une.
 Um exemplo bastante comum pode servir para tornar claro o que eu disse. Tomemos o caso de um pobre órfão que se dirige a uma firma onde talvez encontre trabalho. A caminho, permite-se um devaneio adequado à situação da qual este surge. O conteúdo de sua fantasia talvez seja, mais ou menos, o que se segue. Ele consegue o emprego, conquista as boas graças do novo patrão, torna-se indispensável, é recebido pela família do patrão, casa-se com sua encantadora filha, é promovido a diretor da firma, primeiro na posição de sócio do seu chefe, e depois como seu sucessor. Nessa fantasia, o sonhador reconquista o que possui em sua feliz infância: o lar protetor, os pais amantíssimos e os primeiros objetos do seu afeto. Esse exemplo mostra como o desejo utiliza uma ocasião do presente para construir, segundo moldes do passado, um quadro do futuro.”

In Escritores Criativos e devaneio (1907), Sigmund Freud, Edição Standard Imago Editora, RJ, 1976.

segunda-feira, 30 de julho de 2012

AMOR PELA LITERATURA 4

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( fotografias de Joel Robison )

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DICA PARA O GRUPO DE ESTUDOS: Bachelard e Freud 2



“Será que deveríamos procurar já na infância os primeiros traços de atividade imaginativa?A ocupação favorita e mais intensa da criança é o brinquedo ou os jogos. Acaso não poderíamos dizer que ao brincar toda criança se comporta como um escritor criativo, pois cria um mundo próprio, ou melhor, reajusta os elementos de seu mundo de uma nova forma que lhe agrade? Seria errado supor que a criança não leva esse mundo a sério; ao contrário, leva muito a sério a sua brincadeira e despende na mesma muita emoção. A antítese de brincar não é o que é sério, mas o que é real. Apesar de toda a emoção com que a criança catexiza seu mundo de brinquedo, ela o distingue perfeitamente da realidade, e gosta de ligar seus objetos e situações imaginados às coisas visíveis e tangíveis do mundo real. Essa conexão é tudo o que diferencia o ‘brincar’ infantil do ‘fantasiar’.
 O escritor criativo faz o mesmo que a criança que brinca. Cria um mundo de fantasia que ele leva muito a sério, isto é, no qual investe uma grande quantidade de emoção, enquanto mantém uma separação nítida entre o mesmo e a realidade. A linguagem preservou essa relação entre o brincar infantil e a criação poética. Dá [em alemão] o nome de ‘Spiel’ [‘peça’] às formas literárias que são necessariamente ligadas a objetos tangíveis e que podem ser representadas. Fala em ‘Lustspiel’ ou ‘Trauerspiel’ [‘comédia’ e ‘tragédia’]: literalmente, ‘brincadeira prazerosa’ e ‘brincadeira lutuosa’, chamando os que realizam a representação de ‘Schauspieler’ [‘atores’: literalmente, ‘jogadores de espetáculo’]. A irrealidade do mundo imaginativo do escritor tem, porém, consequências importantes para a técnica de sua arte, pois muita coisa que, se fosse real, não causaria prazer, pode proporcioná-lo como jogo de fantasia, e muitos excitamentos que em si são realmente penosos, podem tornar-se uma fonte de prazer para os ouvintes e espectadores na representação da obra de um escritor.”

 In Escritores Criativos e devaneio (1907), Sigmund Freud, Edição Standard Imago Editora, RJ, 1976.

domingo, 29 de julho de 2012

AMOR PELA LITERATURA 3

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( fotos de Joel Robison )

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DICA PARA O GRUPO DE ESTUDOS: Bachelard, Rilke e Freud 1


 “Nosso objetivo está claro agora: é necessário mostrar que a casa é um dos maiores poderes de integração para os pensamentos, as lembranças e os sonhos do homem. Nessa integração, o princípio que faz a ligação é o devaneio. O passado, o presente e o futuro dão à casa dinamismos diferentes, dinamismos que frequentemente intervêm, às vezes se opondo, às vezes estimulando-se um ao outro. A casa, na vida do homem, afasta contingências, multiplica seus conselhos de continuidade. Sem ela, o homem seria um ser disperso. Ela mantém o homem através das tempestades do céu e das tempestades da vida. Ela é corpo e alma. É o primeiro mundo do ser humano. Antes de ser ‘atirado ao mundo’, como o professam os metafísicos apressados, o homem é colocado no berço da casa. E sempre, em nossos devaneios, a casa é um grande berço. Uma metafísica concreta não pode deixar de lado esse fato, esse simples fato, na medida em que esse fato é um valor, um grande valor ao qual voltamos em nossos devaneios. O ser é imediatamente um valor. A vida começa bem; começa fechada, protegida, agasalhada no seio da casa.
No nosso ponto de vista, do ponto de vista do fenomenólogo que vive das origens, a metafísica consciente que toma seu lugar no momento em que  o ser é ‘atirado ao mundo’, é uma metafísica de segunda categoria. Ela passa superficialmente pelas preliminares onde o ser é o estar bem, onde o ser humano é colocado num estar bem associado primitivamente ao ser. Para ilustrar a metafísica da consciência, será preciso esperar as experiências em que o ser é atirado fora, isto é, no estilo de imagem que estudávamos: posto na porta, fora do ser da casa, circunstância em que a se acumulam a hostilidade dos homens e a hostilidade do universo. Mas uma metafísica completa, que englobe a consciência e o inconsciente, deve deixar no interior o privilégio de seus valores. No interior do ser, no ser interior, um calor acolhe o ser, envolve o ser. O ser reina numa espécie de paraíso terrestre da matéria, fundido na doçura de uma matéria adequada. Parece que, nesse paraíso material, o ser mergulha na fartura, é cumulado de todos os bens essenciais.
Quando se sonha coma casa natal, na profundidade extrema do devaneio, participa-se desse calor primeiro, dessa matéria bem temperada do paraíso material. É nesse ambiente que vivem os seres protetores. Teremos que voltar a falar sobre a maternidade da casa. No momento, gostaríamos de indicar a plenitude essencial do ser da casa. Nossos devaneios nos levam até aí. E o poeta bem sabe que a casa mantém a infância imóvel ‘em seus braços’:
“Casa, deusa da pradaria, ó luz do entardecer,
De súbito alcanças uma face quase humana.
Estás perto de nós, abraçando, abraçados”.

Nota: Rilke, As Cartas.

In A poética do devaneio, Gastón Bachelard, Os Pensadores, RJ,Editor Victor Civita, 1984

sexta-feira, 27 de julho de 2012

CORES DO NOIR: cinema imperdível

‘Cores do Noir’ é o nome da mostra de cinema que a Fundação Clóvis Salgado apresenta na sala Humberto Mauro entre os dias 1º e 9 de agosto/12

A curadoria da instituição escolheu 15 filmes representativos, de diferentes épocas, diretores e temas que, por alguma razão, conectam-se com a estética ‘noir’. Entre os diretores estão Robert Altman, David Lynch, Ridley Scott, Polanski. Existem grandes sucessos, cults e outros quase desconhecidos. Não podemos dizer que o ‘noir’ seja um gênero, é mais propriamente uma estética visual que cria um cenário de dúvida e mistério destilando angústia. Historicamente, esse estilo teve seu apogeu nas décadas de 40 e 50, resultado de adaptações dos romances policiais e de suspense gerados pela Grande Depressão, fotografados em preto e branco, com intenso uso de sombras e contrastes, tendo raízes no chamado expressionismo alemão. O termo ‘film noir’ foi estabelecido por um crítico francês em 1946 e até hoje é polêmico, embora também tenha se tornado quase o sinônimo de charme e qualidade. Outra deliciosa marca do filme ‘noir’ é ser, quase sempre, uma celebração do próprio cinema.  Confira a programação no site da Fundação Clóvis Salgado. 


Eu, particularmente, recomendo os seguintes (existem alguns que, a meu ver, são mais que dispensáveis, são muito ruins):

Amar foi minha ruína – John M. Stahl – 1945


Los Angeles Cidade Proibida – Curtis Hanson – 1997
O perigoso adeus – Robert Altman – 1973
Blade Runner – Ridley Scott – 1982 (o noir/ficção científica meu predileto de todos os tempos)

 Chinatown – Roman Polanski -1974

quinta-feira, 26 de julho de 2012

AMOR PELA LITERATURA 1

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(FOTO:  Joel Robison)

PROGRAMA LEGAL:

EXPOSIÇÃO: 
Peso e Leveza: Fotografia latino-americana entre o humanismo e a violência


25 de julho a 26 de agosto de 2012, de terça a sábado, das 9h30 às 21h; aos domingos, das 16h às 21h.
Galerias Arlinda Corrêa Lima e Genesco Murta, no Palácio das Artes (Avenida Afonso Pena, 1.537 – Centro – Belo Horizonte)
Entrada gratuita
Mais informações: (31) 3789-1600 e (31) 3236-7400


Relação de artistas e suas obras
Eunice Adorno (México, 1982): Mennoniten Leven
Daniel Baca (Argentina, 1973): Diario Crónica
Ricardo Barcellos (Brasil, 1969): Ruína em Construção (Ruina en construcción)
Mayerling García (Nicarágua, 1981): El Crucero
Santiago Hafford (Argentina, 1974): Uniformados
Diego Levy (Argentina, 1973): Choques
Pedro Linger (Argentina, 1975): El Mozote. El Salvador
Myriam Meloni (Itália – Argentina, 1980): Fragil
Pedro Motta (Brasil, 1977): Caixa d'água (Caja de agua)
Ernesto Muñiz (México, 1975): “En mi país, rezamos todos y por todo”
Mauricio Palos (México, 1981): Crónicas de Centroamérica
Leonardo Ramírez (Venezuela, 1987): Los anegados
José Luis Rodríguez Maldonado (Colômbia, 1976): La casa tomada
Juan Toro (Venezuela, 1969): “Nadie se atreva a llorar... dejen que ría el silencio”
Alvaro Villela (Brasil, 1960): Faces (Rostros)