terça-feira, 10 de julho de 2012

Ao grupo de estudos:


ÉDIPO
(...)
(ao Corifeu) Tu ergues tua súplica; e o que vens pedir aos deuses, a proteção e o alívio a teus males, tu obterás, sem demora, se quiseres ouvir minhas palavras, e agora como se faz mister, em face do flagelo. Estas palavras, dirijo a todos vós, cidadãos, sem que  nada saiba acerca do assassínio: sou estranho ao crime, e a tudo o que dele se conta; assim, ouvi o que tenho a vos recomendar. Pouco avançaremos em nossas pesquisas, se não me fornecerdes alguns indícios. Só depois desse atentado é que fui admitido como cidadão entre vós; e por isso a todos vós, tebanos, declaro o seguinte: quem quer que saiba quem matou Laio, filho, de Lábdaco, fica intimado a ir à minha presença para mo dizer; mesmo que receie alguma consequência da denúncia, o criminoso que fale,antecipando uma acusação de outrem, pois nenhuma outra pena sofrerá, senão a de ser exilado do país, sem que sua vida corra perigo. Se alguém sabe o que o homicida não é tebano, mas estrangeiro, não deve ocultar essa revelação, pois terá uma recompensa e o meu reconhecimento. Mas, se vós silenciais, ou se alguém, por mero temor, deixar de indicar um amigo, ou de se denunciar, eis o que ordeno que se faça, e o que ele deve saber de mim: que nenhum habitante deste reino, onde exerço o poder soberano, receba esse indivíduo, seja quem for; e não lhe dirija a palavra, nem permita que ele participe de preces ou de holocaustos, ou receba a água lustral. Que todos se afastem dele, e de sua casa, porque ele é uma nódoa infamante, conforme acaba de nos revelar o oráculo do deus. Eis aí como quero servir à divindade, e ao finado rei. E, ao criminoso desconhecido, eu quero que seja para sempre maldito! Quer haja cometido o crime só, quer tenha tido cúmplices, que seja rigorosamente punido, arrastando, na desgraça, uma vida miserável e se algum dia eu o recebi voluntariamente no meu lar, que sobre mim recaia essa maldição e os males que ela trará! Eu vos conjuro, cidadãos! Atendei a tudo o que vos digo, por mim, pelo deus Apolo, e por este país, que perece na esterilidade na cólera divina! Ainda que essa purificação não nos fosse prescrita pelo deus, não seria possível deixar que a cidade continuasse poluída, visto que o morto era um homem bom, e era o rei! Ao contrário, deveríamos realizar todas as pesquisas possíveis! Para tanto esforçar-me-ei agora,eu, que herdei o poder que Laio exercia, eu que tive o seu lar, que recebi sua esposa como  minha esposa, e que teria perfilhado seus filhos, se ele os tivesse deixado!Sim! Por todas essas razões, como se ele fosse meu pai, tudo farei para descobrir o assassino desse filho de Lábdaco, digno descendente de Polidoro, de Cadmo e do lendário Agenor. A todos quantos se recusem a me obedecer, desejo que os deuses lhes neguem todo e qualquer fruto da terra, e prole de suas esposas; e quero que para sempre padeçam de todo os males que ora sofremos, e de outros ainda mais cruéis. E a vós, tebanos, que, certamente, aprovais meus desígnios, que a justiça vos proteja, e que todos os deuses vos sejam propícios! (...)

ÉDIPO REI, Sófocles, coleção Universidade, RJ, 1987.
ps: a peça de Sófocles é a primeira indicação bibliográfica para o próximo semestre. 


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