segunda-feira, 2 de julho de 2012

ÍTALO CALVINO PARA WOLF 4

“(...)
Resta ainda aquele fio que comecei a desenrolar logo ao princípio: a literatura como função existencial, a busca da leveza como reação ao peso do viver. Talvez Lucrécio, talvez Ovídio tivessem sentido essa necessidade: Lucrécio que buscava – ou acreditava buscar – a impassibilidade epicuréia; Ovídio que buscava – ou acreditava buscar – a ressurreição em outras vidas segundo Pitágoras.
Habituado como estou a ver na literatura uma busca do conhecimento, para mover-me no terreno existencial necessito considerá-lo extensível à antropologia, à etnologia, à mitologia.
Para enfrentar a precariedade da existência da tribo – a seca, as doenças, os influxos malignos -, o xamã respondia anulando o peso de seu corpo, transportando-se em voo a um outro mundo, a um outro nível de percepção, onde podia encontrar forças capazes de modificar a realidade.. em séculos e civilizações mais próximos de nós, nas cidades em que a mulher suportava o fardo mais pesado de uma vida de limitações , as bruxas voavam à noite montadas em cabos de vassouras ou em veículos ainda mais leves, como espigas ou palhas de milho. Antes de serem codificadas pelos inquisidores, essas visões fizeram parte do imaginário popular, ou até mesmo, diga-se, da vida real. Vejo uma constante antropológica nesse nexo entre a levitação desejada e a privação sofrida. Tal é o dispositivo antropológico que a literatura perpetua.
Em primeiro lugar, a literatura oral: nas fábulas, o voo a outro mundo é uma situação que se repete com frequência. Entre as ‘funções’ catalogadas por Propp em sua Morfologia do conto, esse voo é uma ‘transferência do herói’, assim definida: “O objeto da busca encontra-se habitualmente em outro reino, num reino diverso, que pode estar situado muito distante em linha horizontal ou a grande altura ou profundidade em linha vertical”. Propp passa em seguida a catalogar vários exemplos do caso “O herói voa através do espaço”: ‘no dorso de um cavalo ou de um pássaro, sob a forma de pássaro, numa nave volante, num tapete voador, nas costas de um gigante ou de um gênio, no coche do diabo etc.
Não me parece abusivo relacionar esta função xamânica e feiticeiresca, documentada pela etnologia e o folclore, com o imaginário literário; ao contrário, penso que a racionalidade mais profunda implícita em toda operação literária deva ser procurada nas necessidades antropológicas a que essa corresponde. (...)”

In Seis propostas para o próximo milênio, Ítalo Calvino, Companhia das letras, SP, 1988.
p.s: atenção Grupo de Estudos esse fragmento está na bibliografia do ano. 


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