domingo, 15 de julho de 2012

Lóri para Laura 1


(PREFÁCIO: sim, não há acordo. Aí exponho os paradoxos. O problema é todo seu. Continuo achando idiotas suas certezas. Pronto, falei. Vire-se, inclusive com as ilustrações. Afff..., cedi e enviarei cinco mensagens; poderiam ser cinquentas, ou cinco mil... não tenho paciência.)

“Hoje sou adulta. Mas não se iludam: ainda saio da cama de madrugada para ver um cavalo em revoada no jardim quando venta.
Ele está em cada frase que escrevo.
Nesta mesma claridade de uma lua impossível, aprisionada na tela do meu computador, nesta noite verdadeira ou falsa, nesta hora nenhuma é que as coisas acontecem. Quando desabam paredes e abrem-se portas em tantos corredores dando para outros salões e novas portas, a fantasia sentada ao pé de mim desembaraçando os cabelos.
O meu é o reino das palavras: aqui tudo pode ser dito – a cada a um cabe inventar os significados, interpretar as charadas, preencher os silêncios.
Este é o lugar do impalpável que a muitos incomoda: são os que fecham meus livros em ler, sacodem a cabeça – e não entenderão.
Porque falo para os da minha raça: os que além de racionais são também ilógicos, os bem estabelecidos que amam o imprevisível, os que na margem concreta enxergam mais do que isso e não têm com quem o partilhar.
Por isso atuam nos palcos ou nos computadores ou nos ateliês, ou simplesmente vagam alertas pela sua casa quando os outros ancoraram no sono.
Sentindo-se guerreira ou mendiga, insuficiente ou esplêndida – esta que escreve não sou eu, mas algo que transborda dos meus contornos como o mar transbordava de uma concha naquela mão, na dourada infância.
E minha alma, esse cavalo alado, inocente menina ou feiticeira perversa, fará deste novelo de caos e luz o seu porto de partida, num sopro desenrolando infinitamente o nome que é todos os nomes e é a minha alegria:
Vidaminhavidaminhavidaminha....”

In Mar de dentro, Lya Luft, Record, SP, 2004.


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