quinta-feira, 12 de julho de 2012

POESIA: prosa de Vinicius de Moraes para Malu 4


(...)
“Fechou os olhos, tentando adiantar-se à agonia do momento, mas o fato de sabê-la ali ao lado, e dele separada por imperativos categóricos de suas vidas, não lhe dava forças para desprender-se dela. Sabia que era aquela a sua amada, por quem esperara desde sempre e que por muitos anos buscara em cada mulher, na mais terrível e dolorosa busca. Sabia, também, que o primeiro passo que desse colocaria em movimento sua máquina de viver e ele teria, mesmo como um autômato, de sair, andar, fazer coisas, distanciar-se dela cada vez mais, cada vez mais. e no entanto ali estava,a poucos passos, sua forma feminina que não era nenhuma  outra forma feminina, mas a dela,a mulher amada,aquela que ele abençoara como os seus beijos e agasalhara nos instantes do amor de seus corpos. Tentou imaginá-la em sua dolorosa mudez, já envolta em seu espaço próprio, perdia em suas cogitações próprias – um ser desligado dele pelo limite existente entre todas as coisas criadas.
De súbito, sentindo que ia explodir em lágrimas, correu para a rua e pôs-se a andar sem saber para onde...”

Separação, Vinicius de Moraes, Poesia Completa e Prosa, RJ, Nova Aguilar, RJ, 1976.


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