quinta-feira, 30 de agosto de 2012

DO QUE ESTÁ POR VIR:

Quando meu pai esteve doente gostava de contar-me histórias. Certo dia contou-me, com tristeza e saudade, que quando meu avô - pai dele - estava doente, seu filho – o meu pai – visitava-o e perguntava: ‘como o senhor passou a noite?’. Meu avô respondia abanando as mãos e dando de ombros: ‘Assim, assim, de Herodes para Pilatos’. O enigma da frase e sua extrema sonoridade, dizia o meu pai, encantavam-no. E ele sentia-se mais tranquilo, embalado pelo enigma e confortado pelo pai. Perguntei-lhe se sua história era uma resposta à minha pergunta: ‘como o senhor passou a noite?’. Ele sorriu dizendo ‘De Herodes para Pilatos é uma trama fascinante’. ‘Trama entre justos e covardes’, num repente eu respondi. Meu pai disse: ‘antes de viver uma bela trama é preciso desmanchar os nós e distinguir os fios’. Ainda passo meus dias nos primeiros tempos de uma trama. Claro enigma: é um oximoro drummondiano em que me sinto presa porque não me sei se justa ou covarde.

Magda Maria Campos Pinto

 

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