domingo, 5 de agosto de 2012

EM NOME DO PAI 1


ENCONTRO

Carlos Drummond de Andrade

Meu pai perdi no tempo e ganho em sonho.
Se a noite me atribui poder de fuga,
Sinto logo meu pai e nele ponho
O olhar, lendo-lhe a face, ruga a ruga.

Está morto, que importa? Inda madruga
E seu rosto, nem triste nem risonho,
É o rosto antigo, o mesmo. E não enxuga
Suor algum, na calma de meu sonho.

Oh meu pai arquiteto e fazendeiro!
Faz casas de silêncio, e suas roças
De cinza estão maduras, orvalhadas

Por um rio que corre o tempo inteiro,
E corre além do tempo, enquanto as nossas
Murcham num sopro fontes represadas.



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