terça-feira, 21 de agosto de 2012

GRUPO DE ESTUDOS: Fausto e a modernidade



(Delacroix, Mefisto no céu, 1828)

FRAGMENTO PARA SARAH: ( Parte II)

A batalha de Fausto contra os elementos semelha ser tão grandiosa quanto a do rei Lear, ou, mais a propósito, a do rei Midas agitando as ondas. Mas a empresa fáustica será menos quixotesca e mais frutífera, porque vai dirigir-se à própria energia da natureza e canalizá-la para a obtenção de combustível para novos projetos e propósitos humanos coletivos, que nenhum rei antigo chegou sequer a sonhar.
À medida que a nova visão de Fausto se desdobra, vemo-la retornar à vida. Agora, porém, suas visões assumem uma forma radicalmente nova: nada de sonhos e fantasias, nem sequer de teorias, mas programas concretos, planos operacionais para transformar a terra e o oceano. “E isso é possível! (...) rápidos em minha mente, planos e mais planos se desenvolvem” ( 10 222 e segs.). De súbito a paisagem à sua volta se metamorfoseia em puro espaço. Ele esboça grandes projetos de recuperação para atrelar o mar a propósitos humanos: portos e canais feitos pela mão do homem, onde se movem embarcações repletas de homens e mercadorias; represas para irrigação em larga escala; verdes campos e flores, pastagens e jardins, uma vasta e intensa agricultura; energia hidráulica pra animar e sustentar as indústrias emergentes; pujantes instalações, novas cidades e vilas por construir – e tudo isso para ser criado a partir de uma terra desolada e improdutiva, onde seres humanos jamais sonharam viver. Enquanto desdobra seus planos, Fausto percebe que o demônio está atordoado e exausto. Ao menos uma vez ele não tem nada a dizer. Tempos atrás, Mefisto mencionara a visão de um cavaleiro veloz como paradigma do homem que se move pelos caminhos do mundo. Agora, contudo, seu protegido o ultrapassou: Fausto pretende mover o próprio mundo.
De repente nos encontramos diante de um ponto nodal na história do moderno autoconhecimento. Assistimos ao nascimento de uma nova divisão social do trabalho, uma nova vocação, uma nova relação entre ideia e vida prática. Dois movimentos históricos radicalmente diferentes convergem aí e começam a fluir juntos. Um grande ideal do espírito e da cultura se transforma em emergente realidade material e social. A romântica procura de autodesenvolvimento, que levou Fausto tão longe, desenvolve-se a si própria, agora, através de uma nova forma de atividade, através do esforço titânico do desenvolvimento econômico. Fausto está se transformando em uma nova espécie de homem, para adaptar-se a uma nova situação. Em seu novo trabalho, irá experimentar algumas das mais criativas e algumas das mais destrutivas potencialidades da vida moderna; ele será o consumado destruidor e criador, a sombria e profundamente ambígua figura que nossa época virá a chamar “o fomentador”. [o empreendedor]
Goethe sabe que a questão do desenvolvimento é necessariamente uma questão política. Os projetos de Fausto vão exigir não apenas um imenso capital, mas o controle sobre vastas extensões territoriais e um grande número de pessoas. Onde ele pode conseguir esse poder? A solução está no ato IV. Goethe parece pouco à vontade nesse interlúdio político: seus personagens aí se tornam surpreendentemente pálidos e flácidos, e sua linguagem perde muito da força e da intensidade habituais. Ele não se identifica com nenhuma das opções políticas existentes e deseja passar depressa por essa parte. As alternativas, tal como estão definidas no ato IV, são: de um lado, um fragmentário império multinacional que vem da Idade Média, dirigido por um imperador que é simpático, mas venal e inteiramente inepto; de outro lado, desafiando-o, uma gangue de pseudo revolucionários, atraídos apenas pelo poder e a pilhagem, e respaldados pela Igreja, que Goethe vê como a força mais voraz e mais cínica de todas. (a ideia da Igreja como vanguarda revolucionária sempre pareceu forçada a muito leitores, porém os evento recentes do Irã sugerem que Goethe sabia o que estava dizendo.)

In Tudo que é solido desmancha no ar – a aventura da modernidade, Marshall Berman, Companhia das Letras, SP, 1987.
[o livro de Berman é do começo dos anos oitenta... as coisas, de lá pra cá, intensificaram-se, adquirindo uma velocidade construtiva/destrutiva megafáustica, eu diria)

Aproveitando indicamos o filme de Sukorov, que venceu o festival de Veneza em 2011: e ainda não estreou aqui: http://www.youtube.com/watch?v=PlXgjnU83S8

(Delacroix, Fausto e Margarida, 1828)

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