sábado, 18 de agosto de 2012

GRUPO DE ESTUDOS: Rei Lear e modernidade

FRAGMENTO PARA AMEL:

“A moderna transformação, iniciada na época da Renascença e da Reforma, coloca ambos esses universos na Terra [real x ilusório; transcendental x sensual, material x espiritual, ideal x sensual, verdadeiro x ilusório... noutras palavras, a polaridade da tradição antiga.], no espaço e no tempo, preenchidos com seres humanos. Agora o falso universo é visto como o passado histórico, um mundo que perdemos (ou estamos a ponto de perder), enquanto o universo verdadeiro consiste no mundo físico e social que existe para nós, aqui e agora (ou está a ponto de existir). Nesse momento emerge um novo simbolismo. Roupas passam a ser emblema do velho e ilusório estilo de vida; a nudez vem a representar a recém-descoberta e efetiva verdade, e o ato de tirar as roupas se torna um ato de libertação espiritual, de chegada à realidade. A moderna poesia erótica manipula esse tema, como o sabem gerações de modernos amorosos, com alegre ironia; a moderna tragédia penetra suas profundidades aterradoras e alarmantes. Marx pensa e trabalha na tradição trágica. Para ele, as roupas são laceradas, os véus são rasgados, o processo da nudez é violento e brutal, e apesar disso o trágico movimento da história moderna em princípio conduz a um final feliz.
A dialética da nudez que culminará em Marx é definida logo no início da era moderna, no Rei Lear de Shakespeare. Para Lear, a verdade nua é aquilo que o homem é forçado a enfrentar quando perdeu tudo o que os outros homens podem tirar-lhe, exceto a própria vida. Vemos sua família voraz, impelida apenas pela vaidade cega, rasgar seu véu sentimental. Despido não só de poder político, mas de qualquer vestígio de dignidade humana, ele é arremessado porta fora, no meio da noite, sob uma tempestade torrencial e aterradora. A isso, afinal, diz ele, é conduzida uma vida humana: o pobre e solitário abandonado no frio, enquanto os brutos e sórdidos desfrutam o calor que o poder pode proporcionar. Tal conhecimento parecer demasiado para nós: “A natureza humana não pode suportar/A aflição nem o medo”. Porém, Lear não se verga às rajadas da tormenta, nem foge delas; em vez disso, expõe-se à inteira fúria da tempestade, olha-a de frente e se afirma contra ela, ao passo que é arremessado e vergastado. Enquanto vaga na companhia do bobo (ato III, cena 4), eles encontram Edgar, desprezado como um mendigo louco, completamente nu, aparentemente ainda mais desventurado do que ele. “Será o homem nada mais que isso?” – pergunta Lear. “Tu és a própria coisa: o homem desacomodado...”  Então, no clímax da peça, ele rasga seu manto real – “Fora, fora, seus trastes imprestáveis” – e se junta ao “pobre Kent” em autêntica nudez. Esse gesto, que Lear acredita tê-lo lançado no patamar mais baixo da existência – “um pobre, descalço e desgraçado animal” – vem a ser, ironicamente, o primeiro passo na direção da humanidade plena, porque , pela primeira vez, ele reconhece a conexão entre ele mesmo e outro ser humano. Esse reconhecimento habilita-o a crescer em sensibilidade e  vida interior e a mover-se para além dos limites auto-impostos de sua amargura e miséria. Enquanto ele se detém e estremece, assalta-lhe o pensamento de que todo o seu reino está repleto de pessoas cujas vidas inteiras são consumidas por um sofrimento devastador, interminável, que ele começa a experimentar exatamente agora. Quando estava no poder, jamais o notara; todavia, agora estreita a visão para o captar: 

“Pobres miseráveis desnudos, onde quer que estejam,
Que aguardam o golpe dessa impiedosa tormenta,
Como suas cabeças desabrigadas, seus ventres vazios,
Seus rotos e imundos farrapos poderão protegê-los
De intempéries como estas? Oh, dei muito pouca
Atenção a isso! Toma este remédio, oh pompa inútil:
E tu, que possas sentir o que os miseráveis sentem;
Para que o supérfluo de tua dor se espalhe entre eles
E mostre bem clara a justiça dos céus (III, 4, 28-36)

Só agora Lear chega a ser o que almeja: “rei dos pés à cabeça”. A tragédia está em que a catástrofe que o redime humanamente, politicamente o destrói: a experiência que  o qualifica de maneira genuína para ser rei torna impossível tal realização. Seu triunfo consiste em transformá-lo em algo que ele jamais havia sonhado ser: um ser humano. Aqui uma esperançosa dialética ilumina a trágica intempérie e a desgraça. Sozinho no vento, no frio e na chuva, Lear desenvolve a visão e a coragem para romper com sua solidão, para tocar seus semelhantes no encalço de calor mútuo. Shakespeare nos diz que a ameaçadora e nua realidade do “homem desacomodado” é o ponto a partir do qual uma reacomodação pode ser conseguida, a única base sobre a qual uma verdadeira comunidade pode ser construída.”

In Tudo que é sólido desmancha no ar – a aventura da modernidade, Marshall Berman, Companhia das Letras, SP, 1987.
p.s: colchetes meus.

Nenhum comentário:

Postar um comentário