domingo, 23 de setembro de 2012

SÉRIE: o que está por vir.

E veio a bofetada impondo-me o silêncio eterno. Mandado gravado no corpo que nunca mais foi meu, corpo esbofeteado, dor de noite eterna, doer de sol que nunca mais nasceu. Agora me lembro da mãe que não tive; da doença que não cura e vejo minha inviabilidade no desejo que têm de não me verem. E lembro-me dos outros amores que me obrigaram a viver a vida, apesar de. E lembro-me ainda do filho que busquei e que cuidei para que não conhecesse a estranheza que era eu e para que conhecesse a vida sem pesares.  Mas houve o não eterno do filho, fechando assim o círculo de desconhecimento que definiu o território da não vida eterna a mim concedida. O não do filho confirmou meu legado de silêncio esclarecendo para mim uma viabilidade imprevista: ‘inviável és, foste e serás’. Então: cala-te. A morte nunca virá. Chegou antes, não viste, mas agora vês: é a tua vida. Silêncio. No silêncio, a tua viabilidade. Aqui, agora, portanto, podes voltar à primeira pessoa. Bendito não dito pelo filho. Agora poderei falar de flores. E ouço o vizinho que eternamente toca lindamente o violino. Embala a manhã de domingo que me apresenta o paraíso. Quero continuar ouvindo, mas meu amigo está cansado e pede para calar-se. Diz que voltará na semana que vem. Ou num outro dia qualquer. 
Magda Maria Campos Pinto

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