segunda-feira, 24 de setembro de 2012

SÉRIE: o que está por vir.

O esperar desde sempre por ela só foi interrompido pelo não dito pelo filho. Enfim, a liberdade. Voltei para contar-lhe da liberdade de ser quem. Não ser qualquer um, mas ser eu. Ser quem. Voltei para contar-lhe porque você ouve silenciosamente.  Vou dizer-lhe tudo o que se esqueceu: do disco do Roberto Carlos, da desculpa furada da revolução de 64, do natal que ninguém veio e a ceia ficou posta apenas para as moscas (tão bonita a mesa...), da covardia que a pura preguiça cristalizou (e-ve-ry-day...), da indiferença mal disfarçada nas falsas ocupações sociais. Imagine! Sociais! E por fim... o esquecimento do próprio demônio. Você entende, sei que entende. Mas vou explicar, pois assim eu compreendo melhor. O último a ser esquecido foi o demônio porque mais que medo do demônio, vivi o medo de perder o demônio. Mas agora, enfim, não há nenhuma recordação a mais. Por isso, talvez eu não volte, talvez eu me despeça de você hoje. Não devo voltar, eu creio. Mas pode ser que volte, não para contar coisas para você, mas para ouvir o violino do vizinho. Sim, eu sei do vizinho, ainda que você nunca  tenha me confiado, eu sei. E penso que talvez você concorde em compartilhar o violino do vizinho comigo confirmando assim que tudo mudou. E que agora a vida é um paraíso. Cinquenta anos, enfim, não são quinze anos. Enfim. Descobrirei para você a canção do vizinho. Posso? 
Magda Maria Campos Pinto

 

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