sábado, 15 de setembro de 2012

VIGÍLIA DA PRIMAVERA COM JORGE LUIS BORGES:


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Porém a metáfora é exatamente a mesma em todos esses casos. E agora passaremos a algo bem banal, algo que talvez faça vocês rirem: a comparação de mulheres com flores, e também de flores com mulheres. Aqui, é claro, há exemplos de sobra, todos muito fáceis. Mas há um que gostaria de lembrar (talvez não seja familiar a vocês), daquela obra prima inacabada, o Weir of Hermiston de Robert Louis Stevenson. O herói de Stevenson vai a uma igreja, na Escócia, onde vê uma garota – uma garota adorável, pressentimos. E sentimos que ele está prestes a se apaixonar por ela. Porque olha para ela e então se pergunta se há uma alma imortal dentro daquela bela moldura, ou se ela é um mero animal da cor das flores. E a brutalidade da palavra ‘animal’ é destruída, claro, por ‘da cor das flores’. Não acho que precisamos de mais exemplos desse modelo, que pode ser encontrado em todas as épocas, em todas as línguas, em todas as literaturas.

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in Esse Ofício do Verso, Jorge Luis Borges, Companhia das Letras, SP, 2007.

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