sábado, 6 de outubro de 2012

Para o Grupo de Estudos: DA METODOLOGIA

 
 “Benjamin foi provavelmente o marxista mais singular já produzido por esse movimento que, sabe Deus, teve seu quinhão completo de excentricidades. O aspecto teórico que acabaria por fasciná-lo era a doutrina da superestrutura, que fora apenas rapidamente esquematizada por Marx, mas assumira então um papel desproporcional no movimento, quando este passou a contar com um número desproporcionalmente grande de intelectuais e, portanto, gente interessada apenas na superestrutura. Benjamin utilizou essa doutrina apenas como um estímulo heurístico-metodológico e dificilmente estava interessado em sua base histórica ou filosófica. O que aí o fascinava era que o espírito e sua manifestação material estavam tão intimamente ligados que parecia possível descobrir, em todas as partes, as correspondances de Baudelaire, as quais, se fossem adequadamente correlacionadas, se esclareceriam e se iluminariam um as às outras de modo que, ao final, não mais precisariam de nenhum comentário interpretativo ou explicativo. Ele estava interessado na correlação entre uma cena de rua, uma especulação na bolsa de valores, um poema,um pensamento, como a linha oculta que as une permite ao historiador ou ao filólogo reconhecer que devem ser todos situados no mesmo período. Quando Adorno criticou a “apresentação aberta de atualidade” de Benjamin, pegou o ponto exato; era precisamente o que Benjamin fazia e queria fazer. Fortemente influenciado pelo surrealismo, era a ‘tentativa de capturar o retrato da história nas representações mais insignificantes da realidade, por assim dizer em suas raspas’. Benjamin tinha paixão pelas coisas pequenas, até minúsculas; (...). Para  ele, a dimensão de um objeto era inversamente proporcional à sua significação. (...) E essa paixão, longe de ser um capricho, derivava diretamente da única concepção de mundo que teve uma influência decisiva sobre ele, a convicção de Goethe sobre a existência fática de um Urphänomen, um fenômeno arquetípico, uma coisa concreta a ser descoberta no mundo das aparências na qual coincidiriam ‘significado’ (bedeutung, a mais goethiana das palavras, é recorrente nos textos de Benjamin) e aparência, palavra e coisa , ideia e experiência. Quanto menor fosse o objeto, tanto mais provável pareceria poder conter tudo sob a mais concentrada forma; (...) A distância desses estudos em relação ao marxismo e ao materialismo dialético é confirmada pela sua figura central, o flâneur. É a ele, vagueando a esmo entre as multidões nas grandes cidades, num estudado contraste com a atividade apressada e intencional delas, que as coisas se revelam em seu sentido secreto: “A verdadeira imagem do passado passa rapidamente” (Sobre o conceito de História), e apenas o flâneur, que ociosamente vagueia, recebe a mensagem. Com grande acuidade Adorno indicou o elemento estático em Benjamin: “Para entender adequadamente Benjamin é preciso sentir por trás de cada frase a conversão da extrema agitação em algo estático, na verdade, a noção estática do próprio movimento”.” (...)

In Homens em Tempos Sombrios [Walter Benjamin], Hannah Arendt, Companhia de bolso, SP, 2010.
 
(Acima da cidade - Marc Chagall)

Nenhum comentário:

Postar um comentário