segunda-feira, 1 de outubro de 2012

O maravilhoso Autran Dourado:


“Sozinha, o coração outra vez animoso, viu a sala limpa, o céu azul outra vez. Mas sombras teimavam em voltar. Ela já se arrependia do que escreveu a Gaspar. Ele agora sabia de tudo o que ela tinha feito, ela não podia esperar. Será que tinha coragem de aceitá-la? Sabendo como foi mesmo a morte do pai. Não, do feitio que ele era. Impossível voltar atrás, retomar a carta, nunca ter escrito. Como as outras cartas que escreveu. A de Januário também. A não ser, quem sabe... Não, se ele não se mostrou antes, não era agora que ia se mostrar. Quem sabe agora, com medo ele voltava? Quem  sabe, meu Deus? Eu não mereço tanto. Quem sabe ele sempre a amou? Quem sabe não era verdade o que ela à vezes vislumbrava, de tanto querer ver? Quem sabe ele não tinha recebido aqueles seus apelos e semáforas desesperadas, quando ela mudamente lhe comunicava ao seu amor? Ele seria então uma pessoa ainda mais esquisita do que ela imaginou. E os dois viveriam em pecado, tinha medo. Não medo do pecado, mas do que podia acontecer.(..)”

In Os sinos da agonia, Autran Dourado, Difel, RJ, 1977.

Morreu Autran Dourado. Um grande da literatura brasileira. Um singular. ‘Os Sinos da agonia’, a meu ver, está entre os dez maiores romances brasileiros. É forte, doce, denso, digno. Escreveu cerca de vinte obras, entre elas também o ótimo 'Ópera dos Mortos'. Não podemos esquecer Autran Dourado.

2 comentários:

  1. A literatura perdeu um gigante, que andava meio esquecido nestes tempos do culto à superficialidade e à pressa, em tudo. Há poucas semanas iniciei uma releitura das principais obras do Autran e me reencontrei imerso na sua tessitura encantadora e densa, como a vida.

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    1. Penso como você. Autran é fantástico! Grande abraço.

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