segunda-feira, 8 de outubro de 2012

SÉRIE: Então, aqui estamos.

(Gustav Klimt)

O BEIJO

O primeiro que vi foi aquele antigo tom amarelo que, de súbito, ocupou meu campo de visão e então vi que era o seu corpo movendo-se em minha direção e o seu rosto sorriu de leve. Atencioso, amoroso, estendia-me mão. Estávamos na garagem da casa e tive ligeira dúvida: nossa? A dúvida foi atravessada pelo acidente com a maçaneta da porta que, um instante antes, eu havia fechado atrás de mim. A delicada maçaneta ficou na minha mão. Por um segundo pensei numa porta definitivamente fechada. Olhei para ele um pouco sem graça – ‘veja, olhe o que aconteceu’. Ele manteve-se tranquilo, pegou-a da minha mão, dizendo ‘entrego ao senhor José’, e aí estava o senhor José, ele continuou o ‘senhor José vai consertar facilmente’, e tomando-me pela mão carregou-me para fora dali. Começamos a caminhar por uma rua que se revelou tortuosa pedindo nossa atenção, andávamos lentamente, pois nos descobrimos à beira de uma avenida movimentada, que logo se tornou uma rodovia de pesado trânsito. Comecei a me sentir assustada e lembrei-me da criança que ficara em casa. Na verdade, eu estou dizendo ‘criança’ agora, ou melhor, foi o que eu pensei logo depois de haver pensado que o filho havia ficado em casa, ou na casa dele, e isso pareceu bom, bom que minha casa fosse também, aparentemente, a casa dele. Um pensamento ruim insistiu – avenida rodovia sinuosa perigo criança – mas foi interrompido pelo surpreendente gesto dele de abraçar-me pelos ombros, aconchegar-me a ele e eu, eu me entreguei, abracei-o pela cintura e senti a surpresa de poder envolvê-lo inteiro. Meu abraço trazendo-o para mim, o abraço dele levando-me a ele, e assim, muito juntos, continuamos a caminhada pela beira da ruidosa estrada. Mas não havia perigo, não havia perigo para os dois abraçados, aconchegados, atravessando bem as irregularidades do caminho. Ele começou a contar-me, animada e gentilmente, da reunião de trabalho que tivera com um grupo de investidores. Coisa muito nova para ele, que não tem nada a ver com investidores, que não sabe compreender essa vida de empreendedor.  Resolvera conhecer a proposta, sonhando – como sempre – com uma experiência inovadora, planejando invadir aquele universo com sua rebeldia. Era um negócio com veículos, uma espécie de conjunto de montadoras, sim, dessas grandes empresas que fabricam veículos; o fato é que surgiria uma multidão ligada à questão ‘veículos’ e isso era atraente. Eu me esforçava para acompanhar o pensamento dele, que parecia pensar que eu compreendia tudo facilmente, falando com alegria interessada numa resposta. Mas era difícil para mim, eu fazia grande força para assimilar. Talvez  fosse fácil e minha ansiedade por agradá-lo, por fazê-lo saber que ele me fazia feliz, dificultasse tudo. Ele pensava que eu estava compreendendo, eu disse algo, murmurei simplesmente, assim um comentário besta, ‘pode ser uma boa ideia, pode ser interessante’. E ele sorriu apertando um pouco mais o abraço doce. A irregularidade do caminho levou-me um degrau acima e, nesse movimento, meu rosto ficou pertinho do rosto dele e, então, ele começou a beijar meus lábios e eu senti os seus lábios finos e molhados em meus lábios quentes, e quis beijar aquele beijo que começava um pouco sem jeito, e eu sem saber se entregava todo o meu beijar agora mesmo, e entregando, e aquele beijo demorou assim como um caminho longo ou um tempo grande em que fomos duas bocas, não uma boca, não, duas bocas se descobrindo até que acabou a descoberta e nos separamos só um pouquinho e minha cabeça caiu no ombro dele, assim pousada, e ele tombou a cabeça dele sobre a minha cabeça, e eu senti um hálito íntimo, meu, e ouvi sussurros, e murmúrios assim ‘esse nosso campo amarelo dourado’, e eu me aconcheguei mais e fui feliz, bem afundada num amoroso peito vestido com aquela macia blusa de linha amarela bem conhecida minha. 

Magda Maria Campos Pinto
(Gustav Klimt)

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