terça-feira, 23 de outubro de 2012

SÉRIE: Então, aqui estamos.

 
 Outro dia

Ela descia a serra com alguma ansiedade e várias folhas de papel nas mãos. Estava relativamente tranquila; só uma emoção quase feliz tumultuava-lhe o peito: sabia-se decidida. Por um instante a ideia ‘descendo a serra’ ocupou-lhe a mente. Serra. Palavra constante de seu dia a dia, e com significados tão diversos. Ocupou-se com isso: serra bonita da parte saudosa da infância; serra penosa de caminhadas eternas; serra distante de morada triste, serra moldura de orgulho de ser... Mas agora descia a serra e, nesse momento, percebeu que descia a serra da triste morada distante. Sentiu-se quase alegre quando no meio do caminho topou com a casa onde vivia o destinatário dos papéis que tinha em mãos. A casa era grande, pintada por inteiro de amarelo e abria-se em pátios agradáveis. Viu quem que devia receber seus escritos e não se sentiu mal. Não lhe facilitou nada. Nem dificultou; chegou a ser agradável... E ela manteve-se decidida. Olhou com atenção para as folhas de papel: algumas eram bem antigas, já envelhecidas, quase mofadas; outras mais novas, inteiramente escritas, ainda cheirando a tinta. Sorriu internamente: eram rascunhos, manuscritos. Então, começaram os obstáculos: estavam ocupados. Alimentar o cão, atender ao telefone, examinar um livro. Mas, apesar disso, o clima continuava receptivo e ela sustentou o bom ânimo. Sentou-se num banco pequeno, muito baixo, desconfortável, mas pensou que estava tudo bem. Sentaram-se diante dela, distraidamente. Alguém entrou pelo pátio e sorriu com familiaridade, interrompendo propositalmente. Disse que ia alimentar o animalzinho que vivia na parede do pátio; animal de estimação, ela pensou. E viu que aquele estranho que entrara pela porta não era estranho, mas, quem sabe?, namorado de alguém a quem devia entregar seus papéis. Viu também que o animalzinho era uma bonita minhoquinha esperta que muito se alegrou com o alimento que lhe foi dado. O íntimo estranho despediu-se sorridente. Ela olhou outra vez para os seus papéis com admiração e ansiedade. E começou a falar. 
Magda Maria Campos Pinto

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