terça-feira, 9 de outubro de 2012

SÉRIE: Então, aqui estamos.

(Gustav Klimt)
A SEMANA

Era noite de sexta-feira, final de uma semana agitada, mas não de agitação qualquer. Tudo diferente dos últimos anos e tudo aparentemente igual. Na segunda, dois anos depois (melhor, três) veio a brisa do amor. Soprou tão leve e tão definitiva como só uma brisa de amor sabe soprar. Foi um inesperado abraço. Agora escrevo ‘coisa de criança linda’, cinco dias depois. Naquela segunda-feira estive eufórica, construí castelos, tomei navios, andei nas nuvens. Embora soubesse o tempo todo que eram ilusões doces. Sonhei por toda a noite e pela manhã consegui ler vagarosamente ‘e vai a penetração rompendo nuvens e devassando sóis tão fulgurantes’. Fiquei forte e submeti as ilusões doces antes que se tornassem amargas. Trabalhei bravamente com muitas pessoas, com várias coisas – consertei torneiras, fechaduras quebradas, arrumei gavetas – retornei telefonemas, emails, cortei os cabelos, comprei um vestido novo e recomecei a dieta. Dormi bem e sonhei mais. Revigorada – por causa dos sonhos – transformei ilusões doces em decisões serenas, castelos em abrigos aquecidos e protegi a criança. Reconhecendo a criança, obriguei-me ao silêncio e à espera. Tive ânimo e alegria para uma língua nova; fiquei bonita e saí para almoçar comigo mesma. Trabalhei melhor, paguei contas vencidas, cuidei do jardim. Durante o banho cantei uma canção e num breve instante – muito breve, mas suficiente para fazer sentido – senti que a direção da vida estava fora de mim. Doce alívio sem risco de amargura, pois que não é ilusão. Senti em paz as dores do dia a dia e na mesma noite, quando abri a porta de casa encontrei-me com a lua, que, surgindo absurdamente baixa, entrava pela janela. Ao lado da lua descobri nessa mesma noite, com indizível alegria, minha intimidade com Walter Benjamin (descoberta essa que não pode ser contada numa frase, nem em uma página, muito menos numa noite; apesar dessa absurda lua, isso pede sol). Em seguida veio a lembrança feliz ‘você é tão chata que só gosta de filme iraniano’ enquanto a televisão exibia o mais novo Kiarostami. Contei minha lembrança à lua. Que se explique: não era a luz da lua que entrava pela janela, mas a própria lua em sua transbordante forma cheia marcada por sombras em linhas irregulares que pareciam veias. Dei-me conta então que ‘penetração rompendo nuvens’, ilusões doces, intimidade com cinema iraniano e lua entrando pela janela não são assuntos para criança. Nem mesmo criança linda. Mas nesse momento já era noite de sexta-feira, começo de um fim de semana princípio de vida íntima feita de silêncios e de nenhuma espera. Vida de presente (notei que quando lua entra pela janela não há passado nem futuro) sem rédeas. De poderosos sonhos em amarelos.
Magda Maria Campos Pinto 
 (Gustav Klimt)

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