domingo, 14 de outubro de 2012

SÉRIE INTELIGÊNCIA RARA: CLARICE ENTREVISTA

NELSON RODRIGUES:
 
(...)

“- Você se considera artisticamente um homem realizado?
- Não. Eu me considero inversamente um fracassado. Não me realizei e nem acho que alguém se realize. O único sujeito realiado é o Napoleão de hospício que não tem Waterloo nem Santa Helena.
- Nelson, qual é a coisa mais importante do mundo?
- É o amor.
- Qual é a coisa mais importante para uma pessoa como indivíduo?
- É a solidão.
- O que é o amor, Nelson?
- Eu sou um romântico num sentido quase caricatural. Acho que todo amor é eterno e, se acaba, não era amor. Para mim, o amor continua além da vida e além da morte. Digo isso e sinto que se insinua nas minhas palavras um ridículo irresistível, mas vivo a confessar que o ridículo é uma das minhas dimensões mais válidas.
- Nelson, você tem dado muitas entrevistas. Todas elas se parecem esta?
- Não, eu estou fazendo um esforço, um abnegado esforço, para não trapacear nem com você nem com o leitor.
É preciso dizer que, durante a entrevista toda, ele não sorriu nenhuma vez. Com a verdade grave não se sorri.
Mas Nelson não tinha ainda dito o que queria quanto à pergunta: o que é o amor. Voltamos pois a ele.
- Não estou me referindo ao sexo. O sexo sem amor é uma cristalina indignidade. Sempre que o homem ou a mulher deseja sem amor se torna abjeto. Uma mulher não tem o direito de se despir sem amor. Mesmo o biquíni, mesmo o decote, e repito, nenhuma forma de impudor é lícita se a criatura não ama. Se a criatura não ama, não pode usar biquíni, ousar certos decotes ou qualquer outra forma de impudor.
- Você é um homem de sucesso. Até que ponto o sucesso interfere na sua vida pessoal?
- Não interfere justamente porque eu e Lúcia fundamos a nossa solidão.
-Você gostou de me dar esta entrevista:
- Gostei profundamente. O que conta na vida são os momentos inconfessionais.”

In Clarice Lispector Entrevistas, Rocco, SP,2007.


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