segunda-feira, 15 de outubro de 2012

SÉRIE INTELIGÊNCIA RARA: CLARICE ENTREVISTA 2

TOM JOBIM
 
 (...)
“- Para quem você faz música e para quem eu escrevo?
 - Acho que não nos foi perguntado nada a respeito, e, desprevenidos, ouvimos, no entanto, a música e a palavra, sem tê-las realmente aprendido de ninguém. Não nos coube a escolha: você e eu trabalhamos sob uma inspiração. De nossa ingrata argila de que é feito o gesso, ingrata mesmo para conosco. A crítica que eu nos faria, Clarice, nesse confortável apartamento no Leme, é de sermos seres rarefeitos que só se dão em determinadas alturas. A gente devia se dar mais, a toda hora, indiscriminadamente. Hoje quando leio uma partitura de Stravinski ainda mais sinto uma vontade irreprimível de estar com o povo, embora a cultura jogada fora volte pelas janelas – estou roubando CDA.

- Por que nós todos somos parte de um geração quem sabe se fracassada?
 - Não concordo absolutamente – disse Tom

- É que eu sinto que nós chegamos ao limiar de portas que estavam abertas – e por medo ou pelo que não sei, não atravessamos plenamente essas portas. Que, no entanto, têm nelas já gravado nosso nome. Cada pessoa tem uma porta com seu nome gravado, Tom, e é só através dela que essa pessoa perdida pode entrar e se achar.
 - Batei e abrir-se-vos-á.

- Vou confessar a você, Tom, sem  o menor vestígio de mentira: sinto que se eu tivesse tido coragem mesmo, eu já teria atravessado a minha porta, e sem medo de que me chamassem de louca. Porque existe uma nova linguagem, tanto a musical quanto a escrita, e nós dois seríamos os legítimos representantes das portas estreitas que nos pertencem. Em resumo e sem vaidade: estou simplesmente dizendo que nós dois temos uma vocação a cumprir. Como se processa em você a elaboração musical que termina em criação? Estou simplesmente misturando tudo, mas não é culpa minha, Tom, nem sua: é que esta entrevista foi se tornando meio psicodélica.
 - A criação musical em mim é compulsória. O anseio de liberdade nela se manifestam.

- Liberdade interna ou externa?
 - A liberdade total. Se como homem fui um pequeno burguês adaptado, como artista me vinguei nas amplidões do amor. Você desculpe, eu não quero mais uísque por causa de minha voracidade, tenho é que beber cerveja porque ela locupleta os grandes vazios da alma. Ou pelo menos impede a embriaguez súbita. Gosto de beber só de vez em quando. Gosto de tomar uma cerveja, mas de estar bêbado não gosto. 

(Foi devidamente providenciada  a ida da empregada para comprar a cerveja.)

- Tom, toda pessoa muito conhecida, como você, é no fundo o grande desconhecido. Qual é a sua face oculta?
- A música. O ambiente era competitivo, e eu teria que matar meu colega e meu irmão para sobreviver. O espetáculo do mundo me soou falso. O piano no quarto escuro me oferecia uma possibilidade de harmonia infinita.  Esta é a minha face oculta. A minha fuga, a minha timidez me levaram inadvertidamente, contra  minha vontade, aos holofotes do Carnegie Hall. Sempre fugi do sucesso, Clarice, com o diabo foge da cruz. Sempre quis ser aquele que não vai palco. O piano me oferecia, de volta da praia, um mundo insuspeitado de ampla liberdade – as notas eram todas disponíveis e eu antevi que se abriam os caminhos, que tudo era lícito, e que se poderia ir que qualquer lugar desde que fosse inteiro. Subitamente, sabe, aquilo que  se oferece a um menor púbere, que o grande sonho de amor estava lá e que este sonho tão inseguro era seguro, não é, Clarice? Sabe que a flor não sabe que é flor. Eu me perdi e me ganhei,enquanto isso sonhava pela fechadura os seios de minha empregada. Eram lindos os seios dela através do buraco da fechadura.

- Tom, você seria capaz de improvisar um poema que servisse de letra para uma canção?
Ele assentiu e, depois de uma pequena pausa, me ditou o que se segue:

Teus olhos verdes são maiores que o mar.
Se um dia eu fosse tão forte quanto você
Eu te desprezaria e viveria no espaço.
Ou talvez então eu te amasse.
Ai! Que saudades me dá da vida
Que nunca tive! (...)

In Clarice Lispector Entrevistas, Rocco, SP, 2007.

 

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