terça-feira, 16 de outubro de 2012

SÉRIE INTELIGÊNCIA RARA: Clarice entrevista

HÉLIO PELLEGRINO
 
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“- Você quereria ter outras vidas? Era o meu sonho ter várias. Numa eu seria só mãe, em outra vida eu só escreveria, em outra eu só amava.
- Sou um homem de muitos amores – isto é, de muitos interesses – e para tão longos amores, tão curta é a vida. Não há ninguém que consiga, no tempo de uma vida, esgotar todas as suas possibilidades. Se me fossem dadas outras e outras vidas, gostaria de ser: a) filósofo profissional; b) romancista; c) marido de Clarice Lispector, a quem me dedicaria com veludosa e insone dedicação; d) chofer de caminhão; e) morador em Resende, apaixonado por uma moça triste, debruçada à janela de uma casa, saída de um quadro de Volpi; f) seresteiro, poeta, cantor, com a música de Chico Buarque.
- Hélio, diga-me agora, qual é a coisa mais importante do mundo?
- A coisa mais importante do mundo é a possibilidade de ser-com-o-outro, na calma, cálida e intensa mutabilidade do amor. O Outro é o que importa, antes e acima de tudo. Por mediação dele, na medida em que o recebo em sua graça, conquisto para mim a graça de existir.  É esta fonte da verdadeira generosidade e do entusiasmo – Deus comigo. O amor genuíno ao Outro me leva à intuição do todo e me compele à luta pela justiça e pela transformação do mundo.
- Qual a coisa mais importante para uma pessoa, como indivíduo?
- Pessoa e indivíduo, sem estarem em oposição, constituem, no entanto, uma polaridade dialética. O indivíduo, em processo de individuação, se personaliza. E, na medida em que o faz, transcende sua dimensão individual, insere-se num todo comunitário onde o indivíduo se perde, para que a pessoa possa ganhar-se. Creio que a coisa mais importante para uma pessoa, como indivíduo, é morrer em si o indivíduo para que a pessoa possa nascer e desenvolver-se. Na pessoa, o indivíduo morre para renascer em nível mais alto, já não como indivíduo, mas como um ser que – repartido – se torna capaz de compartilhar, esquecendo-se de si.
- Que é o amor?
- Amor é surpresa, susto esplêndido – descoberta do mundo. Amor é dom, demasia, presente. Dou-me ao Outro e, aberto à sua alteridade, por mediação dele, recebo dele o dom de mim, a graça de existir, por ter-me dado.
- Hélio, uma vez um dos meus filhos, quando tinha sete anos, me perguntou como se chamava uma pessoa que não acreditava em Deus, mas amava Deus. Pergunto: quem é Deus?
- Toda criança é, por excelência um ser capaz de admirar-se. Por isso, toda criança é capaz do autêntico filosofar. A questão que o seu filho propôs, aos sete anos, justificaria um longo ensaio teológico. Vamos, porém, à sua pergunta: Deus é o ser em si mesmo, fundamento de todos os entes, abismo insondável de cujas profundezas todos os entes brotam. Deus é a raiz última de todas as coisas. A glória, a graça e o solene mistério de todas as coisas decorrem da presença do sagrado nelas – sinal ontológico de sua proveniência. Qualquer experiência de profundidade é, a meu ver, uma experiência autenticamente religiosa – conhecimento de Deus – embora a ela possa não corresponder uma profissão de fé teísta.
- Hélio, você é analista e me conhece. Diga – sem elogios – quem sou eu, já que você me disse quem é você. Eu preciso conhecer o homem e a mulher.
 - Você, Clarice, é uma pessoa com uma dramática vocação de integridade de totalidade. Você busca, apaixonadamente, o seu self – centro nuclear de confluência e de irradiação de força – e esta tarefa a consome e faz sofrer. Você procura casar, dentro de você, luz e sombra; dia e noite, sol e lua. Quando o conseguir – e este é trabalho de uma vida -, descobrirá em você , o masculino e o feminino, o côncavo e o convexo, o verso e o anverso, o tempo e a eternidade, o finito e a infinitude, o Yang e o Yin; na harmonia do Tao – totalidade -. Você, então, conhecerá homem e mulher – eu e você: nós.
(...)

In Clarice Lispector Entrevistas, Rocco, SP, 2007.


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