segunda-feira, 29 de outubro de 2012

SÉRIE PROFETAS DA CONTEMPORANEIDADE: DELEUZE E GUATTARI

“ De provação em provação, a filosofia enfrentaria seus rivais cada vez mais insolentes, cada vez mais calamitosos, que Platão ele mesmo não teria imaginado em seus momentos mais cômicos. Enfim, o fundo da vergonha foi atingido quando a informática,o marketing, o design, a publicidade, todas as disciplinas da comunicação,apoderaram-se da própria palavra conceito, e disseram: é nosso negócio, somos nós os criativos, nós somos os conceituadores! Somos nós os amigos do conceito, nós os colocamos em computadores. Informação e criatividade, conceito e empresa: uma abundante bibliografia já... O marketing reteve a ideia de uma certa relação entre o conceito e o acontecimento; mas eis que o conceito se tornou o conjunto das apresentações de um produto (histórico, científico, artístico, sexual, pragmático...) e o acontecimento, a exposição que põe em cena apresentações diversas e a ‘troca de ideias’ à qual supostamente dá lugar. Os únicos acontecimentos são as exposições, e os únicos conceitos, produtos que se pode vender. O  movimento geral que substituiu a Crítica pela promoção comercial não deixou de afetar a filosofia. O simulacro, a simulação de um pacote de macarrão tornou-se o verdadeiro conceito, e o apresentador-expositor do produto, mercadoria ou obra de arte,tornou-se o filósofo, o personagem conceitual ou o artista. Como a filosofia, essa velha senhora, poderia alinhar-se com os jovens executivos numa corrida aos universais da comunicação para determinar uma forma mercantil do conceito, MERZ? Certamente, é doloroso descobrir que ‘Conceito’ designa uma sociedade de serviços e de engenharia informática. Mas, quanto mais a filosofia tropeça com rivais imprudentes e simplórios, mais ela os encontra em seu próprio seio, pois ela se sente preparada para preencher a tarefa, criar conceitos,que são antes meteoritos que mercadorias. Ela tem ataques de riso que acabam com suas lágrimas. Assim, pois, a questão da filosofia é o ponto singular onde o conceito e a criação se remetem um ao outro.”

In O QUE É A FILOSOFIA?. Gilles Deleuze – Félix Guattari, Editora 34, RJ, 1992.
 

Nenhum comentário:

Postar um comentário