terça-feira, 30 de outubro de 2012

SÉRIE PROFETAS DA CONTEMPORANEIDADE: DELEUZE E GUATTARI



“O conceito é um incorporal, embora se encarne ou se efetue nos corpos. Mas, justamente, não se confunde com o estado de coisas no qual se efetua. Não tem coordenadas espaço-temporais, mas apenas ordenadas intensivas. Não tem energia,mas somente intensidades, é anergético (a energia  não é a intensidade,mas a maneira como esta se desenrola e se anula num estado de coisa extensivo). O conceito diz o acontecimento, não  a essência ou a coisa. É um Acontecimento puro, uma hecceidade, uma entidade: o acontecimento de Outrem, ou o acontecimento do rosto (quanto o rosto por sua fez é tomado como conceito). Ou o pássaro como acontecimento. O conceito define-se pela inseparabilidade de um número finito de componentes heterogêneos percorridos por um ponto em sobrevoo absoluto, à velocidade infinita. Os conceitos são ‘superfícies ou volumes absolutos’, formas que não têm outro objeto senão a inseparabilidade de variações distintas. O ‘sobrevoo’ é o estado do conceito ou sua infinitude própria, apesar de que os infinitos são maiores ou menores segundo a cifra dos componentes, dos limites e das pontes. O conceito é bem um ato de pensamento neste sentido, o pensamento operando em velocidade infinita (embora maior ou menor).
O conceito é, portanto, ao mesmo tempo absoluto e relativo: relativo a seus próprios componentes; aos outros conceitos, ao plano a partir do qual se delimita, aos problemas que supõe deva resolver, mas absoluto pela condensação que opera, pelo lugar que ocupa sobre o plano, pelas condições que impõe ao problema. É absoluto como todo, mas relativo enquanto fragmentário. É infinito por seu sobrevoo ou sua velocidade, mas finito por seu movimento que traça o contorno dos componentes. Um filósofo não para de remanejar seus conceitos, e mesmo de mudá-los; basta às vezes um ponto de detalhe que se avoluma, e produz uma nova condensação, acrescenta ou retira componentes. O filósofo apresenta às vezes uma amnésia que fza dele quase um doente: Nietzsche, diz Jaspers, ‘corrigia ele mesmo suas ideias, para constituir novas,  sem confessá-lo explicitamente; em seus estados de alteração,esquecia as conclusões às quais tinha chegado anteriormente".

In O QUE É A FILOSOFIA?. Gilles Deleuze – Félix Guattari, Editora 34, RJ, 1992.
 

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