sábado, 3 de novembro de 2012

SEMANA DE VIGÍLIA 2: J. W. GOETHE



Mefistófeles:
Queres, sem freio ou mira estreita,
Provar de tudo sem medida,
Petiscar algo de fugida?
Bem te valha, o que te deleita!
Porém, agarra-o, sem pieguice!

Fausto:
Não penso em alegrias, já to disse.
Entrego-me ao delírio, ao mais cruciante gozo,
Ao fértil dissabor como ao ódio amoroso.
Meu peito, da ânsia do saber curado,
A dor nenhuma fugirá do mundo,
E o que a toda a humanidade é doado,
Quero gozar no próprio Eu, a fundo,
Com a alma lhe colher o vil e o mais perfeito,
Juntar-lhe a dor e o bem-estar no peito,
E, destarte, ao seu Ser ampliar meu próprio Ser,
E, com ela, afinal, também eu perecer.

Mefistófeles:
Oh! Crê-mo a mim, a mim que já mastigo,
Desde milênios essa vianda dura,
Que homem algum, do berço até ao jazigo,
Digere a velha levadura!
Podes crê-mo, esse Todo, filho,
Só para um Deus é feito, a quem
Envolve num perene brilho!
A nós, nas trevas pôs, porém,
E a vós, o dia e a noite, só, convém.

Fausto:
Mas quero!

In Fausto, J. W. Goethe, Itatiaia, BH, 1997.
 
(Mefisto do filme  Fausto, de Sokurov, de 2011)

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