sábado, 10 de novembro de 2012

SEMANA DE VIGÍLIA 2: J. W. GOETHE


MEIA-NOITE
(surgem quatro sombrios vultos de mulher)
A PRIMEIRA: Meu nome é a Penúria.
A SEGUNDA: O meu é a Apreensão.
A TERCEIRA: O meu é a Insolvência.
A QUARTA: É o meu Privação.
AS TRÊS: Fechou-se o portal, não podemos entrar,
De um rico é a mansão, não devemos entrar.
A PRIVAÇÃO: Lá me torno em sombra.
A INSOLVÊNCIA: Lá me torno em nada.
A PENÚRIA: Desviam de mim lá a vista mimada.
A APREENSÃO:  Irmãs, não podeis, não deveis vós entrar;
Mas entra a Apreensão junto ao hálito do ar.
(a Apreensão desaparece)
A PRIVAÇÃO: Sombrias irmãs, afastai-vos daqui.
A INSOLVÊNCIA: Seguindo-te os passos aconchego-me a ti.
A PENÚRIA: Pegada a teus pés te acompanho o alvo e a sorte.
AS TRÊS: Estrelas se ocultam,voam nuvens adiante!
De trás, lá de trás! Lá,distante, distante,
Lá vem nossa irmã, lá vem ela – a Morte!
(saem)
FAUSTO: (no palácio)
Vi quatro vindo, apenas três têm ido;
De seu discurso, obscuro era o sentido,
Confusamente soou, qual – sorte,
Lúgubre rima ecoou-lhe – morte.
Toava oco, surdo, espectralmente incerto.
Até o ar e a luz inda não me hei liberto.
Pudesse eu rejeitar toda a feitiçaria,
Desaprender os termos de magia,
Só homem ver-me, homem só, perante a Criação,
Ser homem valeria a pena, então.

Era-o eu, antes que as trevas explorasse;
Blasfemo, o mundo e o próprio ser amaldiçoasse.
Hoje o ar está de espíritos tão cheio,
Que não há como opor-se a seu enleio.
Se um dia te sorri, radioso e são,
Prende-te a noite em teias de visão;
Voltas do campo, alegre, entre a frescura,
Grasna uma ave, e que grasna? Desventura?
Supertição te envolve em malha aziaga:
Adverte, se anuncia,ocorre, indaga.
E vês-te só, e em ti temor advém.
A porta range, e sem entrar ninguém.
(estremecendo)
Há alguém lá?
A APREENSÃO: A resposta é: sim, há!
FAUSTO: E tu, quem és então?
A APREENSÃO: Sou quem está.
FAUSTO: Pois sai!
A APREENSÃO: Estou lá onde devo estar.
FAUSTO:
(primeiro irritado, depois calmo, para si mesmo):
Calma, exorcismo algum vás pronunciar.
A APREENSÃO: Não pudesse o ouvido ouvir-me,
Na alma inda eu toaria firme;
Sob o aspecto mais diverso,
Violência imensa exerço.
No mar, terra, em qualquer plaga,
Companheira negra, aziaga,
Sem procura sempre achada,
Entre afagos maldiçoada.
Nunca a Apreensão tens conhecido?”

In Fausto – 2ª parte, J. W. Goethe, Editora Itatiaia, BH, 1997.

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