terça-feira, 6 de novembro de 2012

SEMANA DE VIGÍLIA 2: J. W. GOETHE

(Goethe em Roma - Johann H.W. Tischbein)

 “Quanto a mim, acariciava também o pensamento de produzir algo de extraordinário: mas que havia de ser? Não o via com clareza. No entanto, como se prefere sonhar com a recompensa que se deseja a ocupar-se com os  méritos que é preciso adquirir, não esconderei que , se eu almejava uma felicidade digna de inveja,sua imagem mais maravilhosa era, aos meus olhos,a coroa de louros trançada para a fronte do poeta.”
(...)
“Não se conseguira encontrar um princípio para a própria poesia, demasiadamente espiritual e fugidia. A pintura é uma arte que o olhar pode fixar, que se pode seguir passo a passo com o auxílio dos sentidos exteriores: parecia, assim, conduzir melhor a essa meta. Os ingleses e os franceses já haviam teorizado sobre as artes plásticas, e julgou-se que seria possível basear a poesia numa comparação com elas. As artes apresentavam as imagens à vista, a poesia as oferecia à imaginação; as imagens poéticas foram , portanto, o primeiro objeto que se tomou em conta. Começou-se pelas comparações, a que se seguiram as descrições, estudou-se tudo que podia ser apresentado aos sentidos exteriores.
Imagens, pois! Mas essas imagens, onde ir buscá-las senão na natureza: o pintor, evidentemente, imitava a natureza; por que não havia de fazê-lo também o poeta? Mas a natureza não pode ser imitada tal qual se nos apresenta; encerra mil coisas insignificantes, vulgares: é preciso, pois, escolher. Mas que é que determina a escolha? Deve-se procurar o que é marcante. E que coisas são marcantes? Os suíços, por certo, meditaram longamente a resposta, pois chegaram a uma ideia singular, mas bonita e até graciosa. Dizem que o que há mais marcante é sempre o novo; e, depois de meditar algum tempo sobre isso, acrescentam que o maravilhoso é sempre mais novo do que qualquer outra coisa.
Tinham, assim, reunido bastante bem os elementos da poesia. No entanto, era preciso considerar ainda que o maravilhoso pode ser vazio e sem nenhuma relação com a humanidade. Essa relação necessária devia ser de ordem moral e ter como resultado manifesto o melhoramento dos homens. Destarte, um poema atingia a finalidade suprema quando, ao lado de seus outros méritos possuía o de ser útil. Foi  dentro desse conjunto de condições que  se pretendeu julgar os diversos gêneros poéticos, e aquele que imitava a natureza, que era maravilhoso e que simultaneamente tinha uma finalidade, devia ser considerado como o melhor e o mais excelente. E ao cabo de longas meditações essa grande preeminência foi, com profunda convicção, atribuída à fábula de Esopo.”

In Memórias: Poesia e Verdade, vol.1, J. W. Goethe, Editora Universidade de Brasília, 2000.
 

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