quarta-feira, 7 de novembro de 2012

SEMANA DE VIGÍLIA 2: J. W. GOETHE


 “Uma mulher pobre chamou-me, pedindo que eu acolhesse sua criança em minha carruagem, pois o chão quente queimava-lhe os pés. Pratiquei essa caridade em honra da portentosa luz do céu. A criança estava particularmente bem vestida e asseada, mas não consegui arrancar dela coisa alguma, em língua nenhuma.
O Ádige flui agora com maior suavidade e forma em muitos lugares amplos bancos de saibro. No campo, junto ao rio, subindo pelas colinas, as plantações dispõem-se tão próximas umas das outras, tão juntas e entrelaçadas, que julgamos que uma vá sufocar a outra – vinhas, milho, amoras, maçãs, peras, marmelo e nozes. O salgueiro-anão projeta-se vivaz para fora dos muros.  A hera cresce por troncos robustos, sobe pelas rochas e por elas se esparrama; o lagarto esgueira-se pelos vazios, e tudo quanto se move lembra as mais belas pinturas. As tranças das mulheres, presas no alto da cabeça, o peito nu dos homens, seus leves casacos, os porcos magníficos que conduzem do mercado para casa, os burricos carreados, tudo isso compõe um vívido e movimentado Heinrich Roos. (pintor, 1631-1685, viveu em Frankfurt, por isso Goethe o conhecia desde a juventude) E agora, ao anoitecer, com o vento suave e as montanhas rodeadas de poucas nuvens, mais fixas do que atravessando o céu, o zumbido agudo das cigarras começando a se fazer ouvir logo após o pôr do sol, sentimo-nos afinal em casa no mundo, e não qual estivéssemos escondidos ou no exílio. Desfruto disso tudo como se tivesse nascido e sido criado aqui, e retornasse agora de uma caça à baleia na Groenlândia. Saúdo até mesmo a poeira desta terra, que por vezes e ergue em torno da carruagem e da qual passei tanto tempo sem nada saber. Aprecio, sobretudo o tilintar e o guizalhar das cigarras, penetrante e nada desagradável. Soa alegre quando meninos travessos põem-se a assobiar e a disputar com todo um campo cheio dessas cantoras; chegamos a imaginar que realmente superam uns aos outros. Também a noite é tão amena quanto o dia.”

In Viagem à Itália – 1786-1788 - , J. W. Goethe, Companhia das Letras, SP, 1999.

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