quinta-feira, 8 de novembro de 2012

SEMANA DE VIGÍLIA 2: J. W. GOETHE

“Quando, de maneira amigável, censurou Eduard por causa de sua vida solitária, este respondeu:
- Oh! Não saberia como passar o tempo de modo mais agradável! Estou sempre ocupado com ela, sempre próximo dela. Tenho o extraordinário dom de poder imaginar onde Ottilie está, aonde vai, onde para, onde descansa. Vejo-a diante de mim comportando-se e agindo como de costume, trabalhando e fazendo evidentemente sempre aquilo que mais me lisonjeava. Mas não me contento com isso, pois como posso ser feliz longe dela? A minha fantasia elabora então o que Ottilie deveria fazer para se aproximar de mim. Escrevo a mim mesmo cartas ternas e meigas em seu nome; respondo-as e guardo-as todas juntas. Prometi não dar nenhum passo em direção a ela e vou cumprir. Mas o que a impede de me procurar? Será que Charlotte teve a crueldade de obrigar-lhe a prometer e a jurar que não me escreveria e não me mandaria notícias: é natural, é provável, porém acho isso espantoso e insuportável. Se me ama, com penso, como sei, por que não se resolve: por que não se atreve a fugir e a atirar-se em meus braços? Às vezes penso que ela deveria e poderia fazer isso. Quando ouço algum ruído no corredor, olho para a porta. “Ela vai entrar!”, penso, desejo. Ah! E como o possível é impossível, imagino que o impossível tem de se tornar possível. À noite, quando acordo, e o candeeiro espalha um clarão tênue pelo  quarto, o seu vulto, o seu espírito e a sensação de sua presença pairam sobre mim,aproximam-se e me comovem por um instante apenas, para que eu tenha alguma certeza de que ela pensa em mim, de que é minha. Uma única alegria ainda me resta. Quando estava a seu lado, nunca sonhava com ela,mas, agora que estamos distantes, reunimo-nos em sonho e – coisa estranha -, desde que conheci aqui na vizinhança algumas pessoas amáveis, a sua imagem aparece-me em sonhos como se quisesse me dizer: “Olhe a sua volta! Não achará maior beleza, nem maior amor do que em mim”. E assim a sua imagem se introduz em todos os meus sonhos. Tudo o que se passa conosco mistura-se e se embaralha. Logo assinaremos um contrato; já vejo a sua mão e a minha, o seu nome e o meu; ambos se encaixam, ambos se entrelaçam. Contudo esses deliciosos ardis da fantasia não estão isentos de dor. Às vezes, ela age de um modo que fere a ideia pura que tenho dela; só então, depois dessa aflição indescritível, sinto o quanto a amo. Outras vezes mexe comigo, bem ao contrário de sua maneira de ser, e atormenta-me; a sua imagem, porém, logo se modifica, o seu rosto lindo, arredondado, celestial alonga-se: torna-se outra. Mesmo assim, sinto-me angustiado, insatisfeito e arrasado. Não sorria, caro Mittler, ou então sorria! Oh! Não me envergonho dessa afeição, dessa paixão delirante, insensata, como queira! Não, eu nunca havia amado antes; agora, pela primeira vez, sei o que é isso. Até então, tudo em minha vida não passava de prelúdio, entretenimento, passatempo, desperdício, até conhecê-la, até amá-la e amá-la perdidamente. Censuraram-me pelas costas, não frente a frente, dizendo que eu era inepto e incompetente em tudo. Pode ser, mas ainda não tinha encontrado nada em que pudesse revelar-me mestre. Quero ver se alguém me supera na arte de amar! Na verdade, é um talento repleto de lamúrias, dores e lágrimas, mas acho-o tão natural em mim, tão próprio, que dificilmente renunciarei a ele.
Eduard sentiu-se aliviado depois dessas confissões efusivas e sinceras, mas elas ao mesmo tempo evidenciavam todos os aspectos de sua estranha situação, de modo que ele, dominado por conflitos dolorosos, irrompeu em lágrimas, que lhe escorriam abundantemente, pois essas confissões haviam-lhe enternecido o coração.”

In As afinidades eletivas, J. W. Goethe, Nova Alexandria, SP, 1998.

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