quinta-feira, 1 de novembro de 2012

SÉRIE PROFETAS DA CONTEMPORANEIDADE: DELEUZE E GUATTARI

“Na perspectiva que é a minha e que consiste em fazer transitar as ciências humanas e as ciências sociais de paradigmas cientificistas para paradigmas ético-estéticos, a questão não é mais a de saber se o inconsciente freudiano ou o inconsciente lacaniano fornecem uma resposta científica aos problemas da psique. Esses modelos só serão considerados a título de produção de subjetividade entre outros, inseparáveis dos dispositivos técnicos e institucionais que os promovem e de seu impacto sobre a psiquiatria, o ensino universitário, os mass mídia... De uma maneira mais geral, dever-se-á admitir que cada indivíduo, cada grupo social veicula seu próprio sistema de modelização da subjetividade, quer dizer, uma certa cartografia feita de demarcações cognitivas, mas também míticas, rituais, sintomatológica, a partir da qual ele se posiciona em relação aos seus afetos, suas angústias e tenta gerir suas inibições e suas pulsões.
Durante a cura psicanalítica, somos confrontados com uma multiplicidade de cartografias: a do analista e a do analisando, mas também a cartografia familiar ambiente, a da vizinhança, etc. É a interação dessas cartografias que dará aos Agenciamentos de subjetivação seu regime. Mas não se poderá dizer de nenhuma dessas cartografias – fantasmáticas, delirantes ou teóricas – que exprima um conhecimento científico da psique. Todas têm importância na medida em que escoram um certo contexto, um certo quadro, uma armadura existencial da situação subjetiva. Assim nossa questão, hoje em dia, não é apenas de ordem especulativa, mas se coloca sob ângulos muito práticos: será que os conceitos de inconsciente, que nos são propostos no ‘mercado’ da psicanálise, convêm às condições atuais de produção de subjetividade? Seria preciso transformá-los, inventar outros? Logo, o problema da modelização, mas exatamente da metamodelização psicológica, é o de sabe o que fazer com esses instrumentos de cartografia, com esses conceitos psicanalíticos, sistemistas etc. Será que são utilizados como grade de leitura global exclusiva com pretensão científica ou enquanto instrumentos parciais, em composição com outros, sendo o critério último o de ordem funcional?”.

In CAOSMOSE – um novo paradigma estético – Félix Guattari – Editora 34 – RJ, 1992.


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